Monstros na caverna
corpos liminais e experiência religiosa radical
DOI:
https://doi.org/10.24220/2447-6803v50a2025e15466Palavras-chave:
Animalidade, Ascetismo, Demônios, Experiência Religiosa, MonstruosidadeResumo
Neste artigo analisamos textos do cristianismo antigo em que ascetas se encontram com seres monstruosos, em especial com demônios, em cavernas (ou espaços análogos, como túmulos). Ali os demônios assumem formas animalescas ou híbridas. Essas cavernas (ou túmulos) se localizam em espaços liminares, na maioria das vezes, fora das cidades e nos desertos, que são lugares de transição entre os humanos e os animais, os humanos e os demônios, os vivos e os mortos. Nesses encontros esses seres monstruosos provocam os ascetas, física e psiquicamente, a saírem de si mesmos, lançando-os em redes de relações perigosas e conectivas. Entendemos que o encontro com esses seres ameaçadores e violentos, monstruosos, nas cavernas e túmulos, molda a experiência de mundo e o próprio self de seus leitores, lançando-os no mundo, constituindo-os em alteridade, num self esgarçado para fora. Nesse sentido, este campo simbólico e mitopoético do encontro com monstros nas cavernas articula um tipo de experiência religiosa radical, corporal, conectiva e ecológica. Nossas fontes são: a Vida de Antão, de Atanásio, sentenças dos pais do deserto, textos de Evágrio Pôntico e apócrifos do cristianismo primitivo, datados do 3º ao 5º séculos. Nosso método foi a análise literária e procedimentos de história comparada das religiões, acompanhada de conceitos da teoria da monstruosidade.
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