Ritual, Ruína e Riso
a Inversão do Sagrado em Atos 19,13-17
Palavras-chave:
Autoridade espiritual, Exorcismo, Grotesco, Monstruoso, Práticas mágicasResumo
Em Atos 19,13-17, o autor apresenta a narrativa de um exorcismo que, apesar de ter falhado, contribui significativamente para a difusão da mensagem cristã. Um grupo de exorcistas judeus tenta realizar um ritual utilizando o nome de Jesus, mas fracassa de forma humilhante, sendo agredido fisicamente pelo espírito que buscavam expulsar. O autor, ao narrar esse episódio, não apenas expõe a vulnerabilidade dos homens envolvidos, como também evidencia a superioridade da fé cristã em relação às práticas mágicas da época. A cena, construída com elementos de ironia, comicidade e horror, se insere dentro da estética do monstruoso e do grotesco. A presença do espírito maligno, que inverte a lógica do ritual e ridiculariza os exorcistas, serve como recurso literário para destacar a legitimidade do poder cristão e a autoridade exclusiva do nome de Jesus. A narrativa, ao articular símbolos como o nome, a nudez, a inversão ritual e a reação da comunidade, afirma uma nova hierarquia espiritual. Este artigo propõe uma leitura simbólica e estética da perícope, combinando a análise da estética do monstruoso e grotesco com o conceito de semiótica de Iúri Lotman. A partir desta leitura, percebe-se que o episódio do exorcismo frustrado não é apenas uma cena de falha, mas uma construção literária eficaz para a legitimação da fé cristã frente às crenças de seu tempo.
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