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                <journal-title>Revista Reflexão</journal-title>
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                <publisher-name>Pontifícia Universiade Católica de Campinas</publisher-name>
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                <article-title>“Quando as palavras ganham febre”: entrevista com o Cardeal José Tolentino Mendonça</article-title>
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                    <trans-title>“When the words become feverish”: interview with Cardinal José Tolentino Mendonça</trans-title>
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                        <surname>Cappelli</surname>
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                <institution content-type="orgname">Pontificia Universidade Católica de Campinas</institution>
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                <email>marcio.lopes@puc-campinas.edu.br</email>
                <institution content-type="original">Pontificia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Faculdade de Filosofia, Programa Pós-Graduação em Ciências da Religião. Campinas, SP, Brasil. E-mail: marcio.lopes@puc-campinas.edu.br.</institution>
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                <fn fn-type="edited-by">
                    <label>Editores</label>
                    <p>Breno Martins Campos</p>
                    <p>Ceci Maria Costa Baptista Mariani</p>
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                    <label>Conflito de interesse</label>
                    <p>Não há conflito de interesses.</p>
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            </author-notes>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (<italic>Open Access</italic>) sob a licença <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
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        <p>A entrevista a seguir, com o Cardeal José Tolentino Mendonça, aconteceu na reitoria da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), no dia 07 de março de 2024, por ocasião da visita do Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé à universidade. Antes de passarmos a ela, uma breve contextualização.</p>
        <p>José Tolentino Mendonça nasceu em 15 de dezembro de 1965, em Machico, no aquipélago da Madeira. Doutorou-se em Teologia Bíblica com parte dos estudos no Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Atuou como docente na Universidade Católica Portuguesa, universidade em que, posteriormente, exerceu os cargos de vice-reitor, coordenador da Faculdade de Teologia e diretor do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião. Em 2018, após ter sido escolhido pelo Papa Francisco como o pregador dos exercícios espirituais da cúria, foi nomeado arcebispo e passou a ocupar a função de responsável pela administração da Biblioteca Apostólica Vaticana, sendo eleito cardeal em 2019. Recentemente, em 2023, foi designado para ocupar a função de Prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação. Já havia atuado, anteriormente, no Pontifício Conselho para a Cultura e se destacado como importante voz da poesia e da cultura portuguesa contemporânea. Prova disso foi a escolha de Marcelo de Sousa, atual presidente de Portugal, para que ele ficasse encarregado da direção da comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em 2020. Seus ensaios sobre exegese bíblica e espiritualidade têm sido vertidos para diversas línguas e angariado muitos leitores. Destacamos também a sua atuação como tradutor da Bíblia, de textos de Hildegard von Bingen (<italic>Flor brilhante</italic>) e de poemas de Cristina Campo (<italic>O passo do adeus</italic>). Contudo, sua poesia<bold><xref ref-type="fn" rid="fn02">2</xref></bold> conta ainda com uma diminuta recepção no Brasil.</p>
        <p>Tive a oportunidade de ser aluno de José Tolentino Mendonça, enquanto estudante de doutorado, durante o período que passei na Universidade Católica Portuguesa em Lisboa, entre 2016 e 2017. As conversas semanais eram sempre muito cordiais e, ao mesmo tempo, provocadoras e rigorosas academicamente falando. O atual cardeal e à época padre lia com atenção os textos que eu havia produzido, sugeria correções, aprofundamentos e acréscimos de outras referências; no entanto, sempre perguntava quais autores ou livros eu teria para lhe indicar. Desde logo, como pesquisador sob sua supervisão, privei de sua precisão intelectual, de um padrão de exigência reflexiva que não fazia concessões a modas teóricas e da poeticidade de seu pensamento, algo que se confirmou posteriormente com a leitura de sua poesia e ensaios. Mas também pude presenciar sua sede – para utilizar um termo caro a ele – de diálogo e a sua disposição para o acolhimento da diferença, já que se tratava de um estudante brasileiro, não-católico e com uma tese a respeito do que depois nomeei de teologia ficcional de José Saramago, um ateu com posições muito bem definidas. Aliás, não parece ser sem propósito que o atual prefeito do Dicastério para a cultura e a educação tenha colhido de Michel de Certeau a epígrafe que estampa sua <italic>Poesia Reunida</italic>: “Na sua miséria, a teologia olha em direção à porta”. Se eu pudesse escolher um princípio imagético norteador de legibilidade do pensamento de D. José Tolentino Mendonça, seria a porta. Ela é, por assim dizer, o “artefato” que remete à fronteira, lugar de trânsito, saídas e entradas, umbral em que se vê o “dentro” e o “fora”, o imanente e o transcendente, “vão” que contêm todos os outros pontos, como diz outra epígrafe, agora retirada de Glória Anzaldúa e que abre um livro de poemas do cardeal, publicado em 2017, cujo título o inscreve exatamente nesse “lugar” fugidio: <italic>Teoria da Fronteira</italic>. A porta como espaço fronteiriço, portanto, seria o signo das coordenadas da posição dialogal de alguém que encarna os arquétipos que dão nome a um belo ensaio de Karl Rhaner, <italic>Sacerdote e Poeta</italic>, justamente porque têm como matéria prima a palavra. Afinal de contas, como escreveu o próprio Cardeal Tolentino Mendonça: “as línguas são portas/ que se abrem rangendo/ para coisas que não existem”.</p>
        <p>Pois bem, a entrevista documenta, não somente uma vigorosa análise acerca do papel da educação, das ciências e, especialmente do valor das humanidades – as artes entre elas – e da espiritualidade no acelerado e cada vez mais tecnocrático mundo contemporâneo, mas é um testemunho da importância do diálogo – uma maneira de estar à porta –, esse gênero, como se sabe desde há muito, senão fundador, ao menos incontornável no que diz respeito à tarefa do pensar.</p>
        <p>Contudo, acrescentaria que o Cardeal Tolentino Mendonça examina o atual cenário de modo particularmente distinto de dois cacoetes muito comuns hoje. De um lado, seu raciocínio se furta a abrigar-se em jargões conceituais como afirmação de um <italic>parti pris</italic>. De outro, equidista da frouxidão epistemológica disfarçada de cordialidade, atitude que confunde a manutenção da afabilidade com a falta de fricção entre os argumentos – o que acaba degenerando o exercício reflexivo em um ecletismo. Parece-me que, para ele, a verdadeira conversação – e a cultura e a educação só podem se desenrolar como uma grande conversação – depende da clivagem para rumar em direção a uma complexidade maior, isto é, necessita do reconhecimento da diferença para a efetiva hostpitalidade.</p>
        <p>Pode-se dizer, então, que estamos diante de um pensamento que abriga a tradição teológica, filosófica e literária. Claro, inscreve-se na experiência religiosa de extração católica, mas também no sentido de uma abertura à universalidade plural. Por isso mesmo, como o leitor poderá verificar, recolhe elementos das escrituras cristãs e da tradição da igreja, mas também de outras latitudes, como Adília Lopes, Simone Weil, Emmanuel Lévinas, Clarice Lispector, Almada Negreiros e Fernando Pessoa. Curiosamente, citando a poeta já mencionada, Adília Lopes, o prórpio D. José Tolentino Mendonça elege como seu mote a frase: “nós somos uma obra dos outros”.</p>
        <p>O homem de igreja, o artista, o professor, o ensaísta, o tradutor e o sacerdote estão amalgamados e comparecem na arquitetura dos argumentos, aqui, voltados para o fortalecimento do debate das ideias na “arena” pública. O cardeal José Tolentino Mendonça, à semelhança do Paulo de Atos 17, no areópago, recolhe do repertório cultural disponível os elementos para nos lembrar que a educação e a cultura não podem se resumir, respectivamente, a questões de ordem pedagógica ou de opção teórico-metodológica, mas devem inscrever-se, com todas as consequências que derivam daí, numa dimensão ontológica e ética.</p>
        <p>Note-se: não há como reproduzir, aqui, cada entonação, hesitação e pausa que perfizeram a atmosfera, o ânimo, a tonalidade, ou aquilo que podemos chamar de <italic>stimmung</italic> da entrevista. De algum modo, mais do que apenas ser um conteúdo, creio que o que se segue é o “resto”, na linguagem escrita, de uma <italic>forma</italic>: uma poética (ou “artesanato”) do diálogo. Esse “resto” fixado na materialidade da folha, física ou digital, não remete necessariamente à totalidade do evento original. Toda conversa é acontecimento e, como tal, irrepetível. No entanto, ainda assim, pode restituir parcialmente, em modo de testemunho, o diálogo como configuração do pensamento. Com o perdão pelo pobre trocadilho: resta-me convidar o leitor a acompanhar, não só o encadeamento dos argumentos, mas a entrar nessa conversação procurando sentir, minimamente, a capacidade que tais reflexões têm de “conduzir” uma voltagem (ou, no dizer do próprio entrevistado, uma “temperatura”) que produz um curto-circuito nos monologismos mais comuns e abre novos horizontes de sentido.</p>
        <p><bold>Marcio Cappelli (MC)</bold>: Bom, primeiro quero agradecer ao senhor, prezado Cardeal Dom José Tolentino Mendonça, pela disponibilidade de estar conosco, na PUC-Campinas, e nos conceder essa entrevista, que confesso, de minha parte, também evoca uma memória afetiva, especialmente ligada ao tempo em que estive em Portugal na altura do meu doutorado sob sua orientação e à sua participação, posteriormente, na banca, pelo o que eu agradeço muitíssimo mais uma vez.</p>
        <p>O senhor ocupa hoje uma posição importante na estrutura da Igreja Católica Romana, como Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação. Eu gostaria de lhe perguntar, quais seriam, na sua visão — também como poeta e professor que é —, os principais desafios do mundo contemporâneo, considerando esses dois âmbitos?</p>
        <p><bold>José Tolentino Mendonça (JTM)</bold>: A educação, nós sabemos que é uma ferramenta fundamental para a construção do humano. E a educação para o cristianismo é uma paixão que vem desde o início. Porque Jesus mandou os seus discípulos ensinar. E ele próprio era o mestre e viveu esse contexto pedagógico de iniciação com os seus discípulos. Então, o próprio cristianismo, desde as suas origens, confia muito nos processos educativos, como processos de conscientização, como processo de alargamento do conhecimento, como aspecto para a maturação de uma visão, de uma visão sobre a vida, de uma visão sobre Deus, de uma visão sobre a pessoa humana, sobre a vida em sociedade.</p>
        <p>Por isso, o grande desafio hoje é afirmar um projeto de educação integral, que não seja apenas uma simples fábrica de saberes, mas que seja um horizonte de maturação plena do humano em todas as suas dimensões. Esta visão de uma educação integral penso que é uma meta na qual nós precisamos insistir num tempo como este em que há uma perplexidade grande sobre o futuro antropológico. E a tecnologia que está emergindo com a inteligência artificial, toda a discussão em torno a uma humanidade melhorada pela máquina, pela robótica, nos faz, ainda com mais razão, recentralizar o discurso na pessoa humana, na sua salvaguarda, e neste olhar integral para aquilo que o homem é e o seu lugar no todo da realidade, isto da parte da educação.</p>
        <p>A parte da cultura: a cultura é a expressão mais profunda, ao mesmo tempo mais criativa, mais multiforme da humanidade em todas as suas linguagens. A cultura, na concepção tradicional, é aquilo que o homem acrescenta à natureza, aquilo que encontra na natureza. E aí, de fato, o discurso cultural é um discurso fundamental, porque é através das culturas que nós escutamos o humano no seu íntimo. E são as culturas as chaves de descodificação da própria vida, da história, das biografias, das trajetórias, dos desejos. É através das culturas, nomeadamente do diálogo inter-cultural, que nós podemos pensar numa ordem humana e numa ordem internacional de fato baseada numa convivência pacífica.</p>
        <p>Por isso, um desafio muito grande do presente é colocar a falar as culturas num tempo em que as polarizações e a tentação da polarização é sempre crescente. Em vez da hostilidade, nós temos de fazer prevalecer a hospitalidade das culturas. E isso só se faz colocando a missão cultural na agenda eclesial, nas agendas eclesiais, na agenda universitária, na agenda política do nosso tempo.</p>
        <p><bold>MC</bold>: Bom, então, continuando: já no seu primeiro livro de poemas, que aliás é publicado no mesmo ano que o senhor é ordenado padre, em 1990, há, no primeiro poema, uma menção a Herberto Helder. E na sua tese de doutorado, ao ter como objeto uma passagem específica do Evangelho de Lucas e aplicar à ela uma leitura oriunda da narratologia, o senhor parecia anunciar algo que parece se confirmar em muitos outros ensaios de sua autoria, isto é, a necessidade de se levar em conta a dimensão do diálogo, seja com a arte e a cultura de uma maneira geral, seja com a ciência na construção da espiritualidade.</p>
        <p>A partir disso, o senhor poderia nos dizer, por exemplo, qual a importância da dimensão dialogal na sua obra, no seu pensamento?</p>
        <p><bold>JTM</bold>: Penso que é, verdadeiramente, a matriz da minha visão. Eu adotei uma expressão que é de outra poeta, que você, Márcio, conhece, Adília Lopes. Ela diz: “muitas vezes, eu sou uma obra dos outros”. Eu acredito muito nisso, quer dizer, nos construímos na relação. E o modo como a filósofa Simone Weil traduz o início do Evangelho de São João, que nós normalmente usamos no princípio era o Logos e ela diz: “no princípio era a relação” . Eu acredito muito nisso: “no princípio é a relação”, porque a vida ganha sentido quando ela é porosa, quando ela se deixa tocar, quando ela alb<italic>erga</italic> o contributo dos outros, quando é um eu que se constrói e se pensa no horizonte da alteridade, e por isso penso, olhando para a minha vida também na sua simplicidade, penso que esse “artesanato do diálogo”, como diz o Papa Francisco na encíclica <italic>Fratelli Tutti</italic>, esse artesanato do diálogo tem sido o que mais me interessou na vida inteira, seja como homem de igreja, como crente, como poeta, como pensador, tem sido o que mais me interessou. Esse artesanato, esse labor, muitas vezes miniaturial, mas um labor sempre muito enriquecedor.</p>
        <p><bold>MC</bold>: Ainda pensando nesse tom dialogal, eu gostaria que o senhor nos dissesse um pouco como pensa a relação entre espiritualidade e arte, uma relação, aliás, que perpassa todos os seus escritos. Como essas realidades podem se interpelar sem perder suas respectivas autonomias?</p>
        <p><bold>JTM</bold>: O gesto artístico É um gesto sempre espiritual. Sempre espiritual. O Lévinas dizia isso: “o poema é um ato espiritual”. E, por poema, ele pensava em todo gesto artístico. Mesmo quando um pintor aborda um tema aparentemente muito distante da vida interior ou do horizonte da transcendência, ele não deixa de estar a manusear alguma coisa, que não é apenas da ordem do visível, mas é da ordem do invisível. Porque aquilo que os pintores nos ensinam não é apenas olhar o visível, mas é a capacidade, é uma pedagogia do invisível. Como a música é uma pedagogia do silêncio, como a poesia é uma pedagogia da palavra que nós somos capazes de ouvir e do espaço em branco que existe entre as palavras. Essa relação entre espiritualidade e arte é uma espécie de passagem obrigatória, uma espécie de vínculo que acontece para que a própria arte possa existir.</p>
        <p>É claro que há um discurso espiritual para lá da experiência estética. A experiência estética não a esgota. A espiritualidade é apenas uma das facetas, é um dos endereços. É um dos lugares da experiência religiosa, da interrogação do sentido, mas não o esgota. E aí nós podemos ver que aquilo que os papas, no diálogo com os artistas, têm repetido, penso que nos ilumina muito. Eles dizem: vós artistas sois aliados da religião na abertura à verdade.</p>
        <p>Então, penso que a religião e a espiritualidade em geral podem também ser um contributo ao mundo das artes e à experiência estética, no sentido que as incentiva a levar mais profundamente esta abertura, esta exposição a uma verdade maior, uma verdade que não somos nós a conter, mas ela que nos contém.</p>
        <p><bold>MC</bold>: E uma verdade que passa também por interrogações, não? Lembro-me do título de uma coletânea de poemas que o senhor organizou com o Pedro Mexia, que dizia que era uma coletânea sobre Deus como interrogação na poesia portuguesa.</p>
        <p><bold>JTM</bold>: Isso é muito importante, porque, no fundo, o que é que a espiritualidade e a arte têm em comum, agora, na singularidade de cada uma das experiências? É serem ambas uma forma de auscultação. Colocam-se como uma pergunta, como um lugar de espera. E, no fundo, a arte é uma intensidade de espera, de expectativa de Deus, para usar o título famoso de Simone Weil. E a espiritualidade também é isso. Como nos diz o profeta Miquéias, “é bom esperar em silêncio a revelação de Deus”. Isso é a espiritualidade, essa espera ativa da revelação.</p>
        <p><bold>MC</bold>: Considerando, inclusive, a epígrafe que o senhor escolheu para sua Poesia Reunida – refiro-me à frase de Michel de Certeau: “Da sua miséria a teologia olha em direção à porta”, retirada de um ensaio em que ele trata da tarefa da teologia, qual seria a importância da teologia, das ciências da religião e de outras ciências humanas para educação e cultura? Eu me refiro a isso porque hoje, no mundo contemporâneo, de uma maneira geral, há a tendência a pensarmos a inovação pelo viés da tecnologia somente.</p>
        <p><bold>JTM</bold>: Eu penso que a teologia, as ciências da religião e as humanidades em geral têm um papel fulcral. Precisamente porque elas conservam não as perguntas penúltimas, que são, no fundo, as perguntas da tecnologia, mas nos apontam as perguntas últimas sobre o destino do homem. Não são, nesse sentido, um saber útil, imediato, mas a inutilidade, entre aspas. O anacronismo deste tipo de ciências, teologia, ciências da religião, endereça-nos para aquilo que não se esgota na resposta às necessidades do aqui e do agora, mas nos abre ao horizonte último de sentido, aquela verdade que ilumina e resgata a própria condição humana. E, sem isso, o ser humano não é ser humano. Se nós vivemos apenas na consumação do presente, se nós vivemos apenas aquilo que a máquina nos pode dar, há uma incompletude humana, há um enigma em nós que fica por resolver.</p>
        <p>E é esse enigma que interessa a teologia e as ciências da religião. Nós, cristãos, acreditamos que Jesus Cristo é a resposta, é a chave para a grande pergunta humana. Porque o ser humano é uma pergunta. Aquilo que Clarice Lispector também diz: “eu sou uma pergunta”. Cada um de nós é uma pergunta. Mas é importante que seja uma pergunta ampla, uma pergunta que olhe tudo aquilo que há no homem, não apenas as suas necessidades imediatas, mas também este confronto com o definitivo, com o absoluto, com o eterno. E aí, sem essas ciências, nós não podemos falar do humanismo. Falamos de uma tecnologia ou de uma tecnocracia que tem o seu lugar, mas não podemos falar de um humanismo.</p>
        <p><bold>MC</bold>: E o senhor diria que o lugar da teologia, tal como enunciado por Michel de Certeau, é um lugar difícil?</p>
        <p><bold>JTM</bold>: É um lugar difícil, e eu acho que, na modernidade, a teologia também aprendeu a abraçar a sua fragilidade. Porque a teologia não é um discurso triunfante, triunfalista, mas é um discurso que abraça a sua escassez, quer dizer, a teologia não domina o seu objeto, ela não é sabichona, ela não sabe tudo sobre Deus, ela não aprisiona Deus num discurso, mas ela é um modo de interrogar, é um modo de iluminar um mistério. E, nesse sentido, a teologia contemporânea se tornou uma teologia que não tem a ambição de se tornar um sistema de classificação ou de catalogação, de explicação completamente acabado, mas ela aceita o seu próprio inacabamento. Ela aceita que não pode dizer tudo e que a última palavra talvez seja o silêncio da mística, não os tratados de teologia.</p>
        <p>E, nesse sentido, a teologia se reconciliou com a sua miséria, para utilizar a expressão de Michel de Certeau, que é uma expressão, a meu ver, que nos obriga a um pensamento importante. Mas essa teologia, hoje mais frágil, hoje mais precária, hoje mais provisória, não deixa de constituir um saber absolutamente necessário às nossas sociedades. E eu penso que um desafio muito grande para a teologia ensinada numa universidade, como é o caso aqui da PUC-Campinas, é de fato a inscrição a pleno direito, a plena cidadania da teologia e das ciências da religião no sistema científico. A teologia e as ciências da religião são ciência e uma universidade pontifícia tem a responsabilidade de contribuir, de favorecer, quer em termos da didática e da pesquisa, a inscrição desta ciência, deste conhecimento, como uma ciência normal e como uma ciência, como um lugar necessário da construção da universidade. Eu penso que não se compreenderia a universidade sem a teologia. E que as universidades que não têm esta dimensão, digamos, lhes falta alguma coisa.</p>
        <p><bold>MC</bold>: Se o senhor me permite evocar um trecho de sua obra poética, há um verso de um poema seu que diz que a arte existe apenas como uma espécie de homenagem pobre a alguma coisa que passa, e, pensando junto com essa epígrafe que o senhor escolheu para a sua poesia reunida, para mencionar novamente a frase de Certeau, existencialmente ou como vocação ou, para dizer de outro modo, como homem que é teólogo e é um homem de letras também, esse olhar em direção à porta é um aceno à poesia de alguma maneira?</p>
        <p><bold>JTM</bold>: De alguma forma, o próprio discurso teológico e das ciências da religião têm uma metodologia própria. E é necessário afirmar essa metodologia. E o valor dessa forma de aferição, de procura, de construção, de discurso. É uma hermenêutica consistente, coerente, luminosa, necessária. Mas, há um momento em que as palavras têm de mudar de temperatura. E, quando as palavras ganham febre, como já dizia Platão falando da beleza, mas como diz um poeta italiano contemporâneo, Sandro Penna, “quando as palavras ganham febre, elas viram poesia”.</p>
        <p>E hoje, por exemplo, em parte, a gente vê isso também na filosofia, uma parte do trabalho filosófico e do trabalho teológico é a escritura, a escritura da própria teologia, e aí, a teologia também confina com a literatura, e a filosofia com a poesia, porque não pode ser de outra maneira. Há um momento em que viramos mestiçagem. E, nesse momento, percebemos também a importância da poesia como lugar de pensamento, como lugar para a formulação de uma pergunta, talvez, ainda mais acesa, mais encardida de luz acerca de Deus e acerca do que somos.</p>
        <p><bold>MC</bold>: Bom, outra linha de força do seu pensamento, ao que parece, é a ênfase numa experiência de vivência da fé não alienada do cotidiano e do corpo - isso é muito presente num ensaio como <italic>A Mística do Instante</italic>, mas em outros. Pensando no nosso contexto contemporâneo, em que as noções de ser humano, de tempo e de espaço têm sido reconfiguradas, como acredita que isso seria possível?</p>
        <p><bold>JTM</bold>: É interessante aquilo que diz o Papa Francisco sobre a sabedoria. Ele diz que sabedoria é a harmonia, recuperando um discurso que já vem desde a patrologia, desde os primeiros padres do cristianismo. E diz uma coisa que a harmonia se traduz na união criativa fértil da razão, do coração e da mão. A mão, razão e coração também, mas a mão quer dizer pele, quer dizer tatilidade, quer dizer corpo, corporeidade, e nós herdamos um modo de pensar as nossas áreas científicas, nomeadamente a teologia, as ciências da religião, muitas vezes de uma forma racionalista, que se pensa como um discurso tão interior que dispensa aquilo que é a exterioridade do corpo, tão abstrato que não precisa do referimento ao concreto. E aí a chamada mística do cotidiano e uma teologia que parta dos sentidos, não apenas dos sentidos sobrenaturais, mas dos sentidos naturais, que são verdadeiras entradas, portas para a busca de Deus, para a sua interpelação, penso que é muito importante. E tanto mais num tempo em que a explosão do digital e do telemático acaba, muitas vezes, por relativizar a presença, a presença do corpo e da relação e daquilo que o encontro dos corpos ensina e celebra. Penso que a teologia, a ciência e a religião não podem abdicar de pensar a importância da corporeidade na construção do próprio discurso crente, porque o corpo é um locus necessário, o corpo é um primeiro sacramento que nos dá a ver a evidência, a evidência de Deus, se acreditamos que tudo tem início para nós da revelação cristã na encarnação do Verbo de Deus.</p>
        <p><bold>MC</bold>: Entrelaçada a essa resposta, eu teria mais uma pergunta. O senhor tem insistido na necessidade de se recuperar hoje o humano e as suas relações fundamentais, mas também a lentidão e o espanto. Qual seria, portanto, diante de um mundo cada vez mais técnico, mais veloz e mais consumidor o desafio de uma universidade católica como promotora de um saber humanista e crítico no século XXI? E, se o senhor me permite, acrescentar em especial na América Latina, que é marcada por processos históricos que geraram desigualdades com as quais nós sofremos até hoje.</p>
        <p><bold>JTM</bold>: Há um verso de um autor português que teve uma relação também muito forte, ele é um afrodescendente que se chama Almada Negreiros, que teve um grande papel no modernismo português, amigo de Pessoa. Ele tem um verso para mim que é uma espécie de lema.: “Sonhei um país onde todos chegam a mestres”.</p>
        <p>Ora, nós não chegamos a mestres sem o espanto. Se nós olhamos para a origem do conhecimento, do saber, da própria arte, a origem está na capacidade do espanto, do maravilhamento, do encantamento perante a realidade. Aquilo que Fernando Pessoa, através do seu heterónimo, Alberto Caeiro, dizia: “a espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”.</p>
        <p>O espanto é aquilo que nos faz ganhar uma distância, que não é uma separação, mas acaba por ser um mergulho dentro da complexidade do real, permitindo-nos habitá-lo de uma forma porosa, aberta, exposta e ao mesmo tempo disponível para conectar, para receber, para compreender todas as grandes aventuras humanas e o conhecimento é apenas uma das grandes aventuras humanas. Pensemos no amor, pensemos na fé... são outras experiências, grandes experiências humanas. O conhecimento e as outras experiências humanas não se entendem sem o espanto.</p>
        <p>Mas, para ver o espanto, nós temos de encontrar um outro ritmo. E, às vezes, o problema da nossa sociedade é a forma como encaramos o tempo, que é uma velha questão filosófica e que, no fundo, é uma questão fundamental. Se somos devoradores do tempo, consumimos o tempo como um fogo, como uma chama consome um pau de fósforo ou se nós somos chamados há uma espécie de lentidão, que é uma metabolização maior da própria experiência humana? O contrário da vertigem é a consciência, e não há processos de consciência sem uma ralentização da vida, de espaço e escuta ao encontro as grandes perguntas.</p>
        <p>Eu acho que isso faz falta na cultura contemporânea. E muitos dos atropelos, muitas das polarizações que hoje nós encontramos na cena pública têm a ver com esse ritmo ofegante do qual não nos libertamos e que se torna uma espécie de cegueira, de “ensaio sobre a cegueira”, que nos obsidia a todos. A ralentização é aquilo que permitiria abrirmos os olhos. E isso, penso que, se abrirmos os olhos, descobrimos o sabor e a vantagem da lentidão e descobrimos a maravilha e o encantamento que é o espanto, que é esta grande oportunidade que a vida representa.</p>
        <p><bold>MC</bold>: Professor e Cardeal Tolentino, muito obrigado! É uma honra ouvi-lo, conversar com o senhor. E mais uma vez manifesto, aqui, o meu afeto por tudo que o senhor representou na minha trajetória.</p>
        <p><bold>JTM</bold>: É retribuído, Marcio. É retribuído.</p>
        <p><bold>MC</bold>: Uma pessoa como o senhor, na função que ocupa, é de extrema relevância. Como diria a poeta Cecília Meirelles, brasileira que o senhor conhece bem: “A vida só é possível reinventada”, e acho que esse papel é um papel que o senhor tem feito muito bem.</p>
        <p><bold>JTM</bold>: Obrigado, Márcio. Muito obrigado.</p>
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            <title>Agradecimentos</title>
            <p>Ao Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-Campinas, ao Prof. Dr. Germano Rigacci Júnior, Reitor da PUC-Campinas, por oportunizarem o tempo e o espaço para a entrevista e ao mestrando Eliabe Simplício da Silva, por realizar a primeira versão da transcrição da entrevista.</p>
        </ack>
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                <p><bold>Cómo citar este artículo:</bold> Carou, M. Maria Clara Luchetti Bingemer: el rol del amor en la vida intelectual. <italic>Reflexão</italic>, v. 49, e2410763, 2024. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.24220/2447-6803v49a2024e2410763">https://doi.org/10.24220/2447-6803v49a2024e2410763</ext-link></p>
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                <label>2</label>
                <p>O seu primeiro livro de poesia, publicado em 1990, <italic>Os dias con-tados</italic>, inaugurou uma vasta produção, que já conta com doze tomos, estando onze compilados na quarta edição de sua poesia reunida: <italic>A noite abre meus olhos</italic> (2021): <italic>Os Dias Contados</italic> (1990), <italic>Longe não sabia</italic> (1997), <italic>A que distância deixaste o coração</italic> (1998), <italic>Baldios</italic>, (1999), <italic>De Igual para Igual</italic> (2000), <italic>Estrada Branca</italic> (2005), <italic>Tábuas de pedra</italic> (2006), <italic>O Viajante sem Sono</italic> (2009), <italic>Estação central</italic> (2012), <italic>A papoila e o monge</italic> (2013), <italic>Teoria da fronteira</italic> (2017). <italic>O seu livro de poemas mais recente é Introdução à pintura rupestre</italic> (2021).</p>
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