<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "http://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
<article xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" dtd-version="1.1" specific-use="sps-1.9" article-type="research-article" xml:lang="pt">
    <front>
        <journal-meta>
            <journal-id journal-id-type="publisher-id">reflex</journal-id>
            <journal-title-group>
                <journal-title>Revista Reflexão</journal-title>
                <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Reflexão</abbrev-journal-title>
            </journal-title-group>
            <issn pub-type="ppub">0102-0269</issn>
            <issn pub-type="epub">2447-6803</issn>
            <publisher>
                <publisher-name>Pontifícia Universiade Católica de Campinas</publisher-name>
            </publisher>
        </journal-meta>
        <article-meta>
            <article-id pub-id-type="doi">10.24220/2447-6803v49a2024e2410737</article-id>
            <article-categories>
                <subj-group subj-group-type="heading">
                    <subject>DOSSIÊ | Homenagem à Profa. Maria Clara Lucchetti Bingemer</subject>
                </subj-group>
            </article-categories>
            <title-group>
                <article-title>Como a teologia de Maria Clara Bingemer ajudou-me na formulação do <italic>princípio pluralista</italic></article-title>
                <trans-title-group xml:lang="en">
                    <trans-title>How Maria Clara Bingemer’s theology helped me in formulating the pluralist principle</trans-title>
                </trans-title-group>
            </title-group>
            <contrib-group>
                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-8660-4419</contrib-id>
                    <name>
                        <surname>Ribeiro</surname>
                        <given-names>Claudio de Oliveira</given-names>
                    </name>
                    <xref ref-type="aff" rid="aff01">1</xref>
                </contrib>
            </contrib-group>
            <aff id="aff01">
                <label>1</label>
                <institution content-type="orgname">Universidade Federal de Juiz de Fora</institution>
                <institution content-type="orgdiv1">Instituto de Ciências Humanas</institution>
                <institution content-type="orgdiv2">Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião</institution>
                <addr-line>
                    <named-content content-type="city">Juiz de Fora</named-content>
                    <named-content content-type="state">MG</named-content>
                </addr-line>
                <country country="BR">Brasil</country>
                <email>cdeoliveiraribeiro@gmail.com</email>
                <institution content-type="original">Universidade Federal de Juiz de Fora, Instituto de Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião. Juiz de Fora, MG, Brasil. E-mail: cdeoliveiraribeiro@gmail.com.</institution>
            </aff>
            <author-notes>
                <fn fn-type="edited-by">
                    <label>Editores</label>
                    <p>Breno Martins Campos</p>
                    <p>Ceci Maria Costa Baptista Mariani</p>
                </fn>
                <fn fn-type="conflict">
                    <label>Conflito de interesse</label>
                    <p>Não há conflito de interesses.</p>
                </fn>
            </author-notes>
            <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
                <day>0</day>
                <month>0</month>
                <year>2024</year>
            </pub-date>
            <pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">
                <year>2024</year>
            </pub-date>
            <volume>49</volume>
            <elocation-id>e2410737</elocation-id>
            <history>
                <date date-type="received">
                    <day>20</day>
                    <month>01</month>
                    <year>2024</year>
                </date>
                <date date-type="rev-recd">
                    <day>24</day>
                    <month>05</month>
                    <year>2024</year>
                </date>
                <date date-type="accepted">
                    <day>26</day>
                    <month>06</month>
                    <year>2024</year>
                </date>
            </history>
            <permissions>
                <license license-type="open-access" xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (<italic>Open Access</italic>) sob a licença <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
                </license>
            </permissions>
            <abstract>
                <title>Resumo</title>
                <p>A pesquisa teve como objetivo identificar, na obra da teóloga Maria Clara Lucchetti Bingemer, elementos que auxiliaram para o estabelecimento das bases conceituais do <italic>princípio pluralista</italic>. Metodologicamente, estão realçados nesta abordagem três aspectos, interconectados, nos quais se percebe a contribuição da autora para a formulação desse princípio: (i) a dimensão teológica feminista; (ii) a relação entre espiritualidade, pluralismo e diálogo; e (iii) as perspectivas abertas, dialógicas e inter-religiosas de mística e de alteridade. Entre os resultados do estudo, destacam-se as indicações de: (a) elementos constitutivos de uma lógica plural para o método teológico que ressalte a importância das questões ecumênicas e de gênero nas reflexões teológicas atuais e o valor da mística inter-religiosa e da alteridade para a vivência humana; (b) aspectos da visão teológica feminista na busca de imagens femininas de Deus, centradas nas expressões da fé em uma divindade não androcêntrica, que seja fonte de iluminação crítica das formas de patriarcalismos e sexismos, cujo foco se volte à vivência espontânea da fé que promova a cura e que valorize o corpo, a sexualidade, o cuidado, a proteção e a responsabilidade ética com a Criação; e (c) subsídios para discernimento teológico da realidade social e eclesial, em função da instabilidade e das possibilidades que a pluralidade e a alteridade geram, e para formulação de bases teóricas que visem a intervenções práticas, pois diante de realidades plurais, em geral, exigem-se posicionamentos mais nítidos em favor do empoderamento de grupos subalternos que levem à justiça e à paz no mundo.</p>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>Abstract</title>
                <p>The research aimed to identify, in the work of theologian Maria Clara Lucchetti Bingemer, elements that contributed to establishing the conceptual bases of the pluralist principle. Methodologically, three interconnected aspects are highlighted in this approach, in which the aforementioned author’s contribution to the formulation of the pluralist principle is perceived: (i) the feminist theological perspective; (ii) the relationship between spirituality, pluralism, and dialogue; and (iii) open, dialogical and inter-religious perspectives of mystique and otherness. Among the research results, the following stand out: (a) constitutive elements of a plural logic for the theological method, which highlights the importance of ecumenical and gender issues for current theological reflections and the value of inter-religious mystique and of otherness to human; (b) aspects of the feminist theological vision in the search for feminine images of God, centered on expressions of faith in a non-androcentric divinity, which is a source of critical illumination of the forms of patriarchalism and sexism, whose focus is the spontaneous experience of faith that promotes healing and values the body, sexuality, care, protection and ethical responsibility towards Creation; and (c) subsidies for theological discernment of social and ecclesiastical reality, due to the instability and possibilities that plurality and alterity generate, and for the formulation of theoretical bases aimed at practical interventions, because in the face of plural realities, in general, clearer positions are required in favor of the empowerment of subordinate groups that lead to justice and peace in the world.</p>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave</title>
                <kwd>Alteridade mística inter-religiosa</kwd>
                <kwd>Dialogicidade</kwd>
                <kwd>Princípio pluralista</kwd>
                <kwd>Teologia do pluralismo</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>Keywords</title>
                <kwd>Alterity, inter-religious mysticism</kwd>
                <kwd>Dialogicality</kwd>
                <kwd>Pluralistic principle</kwd>
                <kwd>Theology of pluralism</kwd>
            </kwd-group>
            <counts>
                <fig-count count="0"/>
                <table-count count="0"/>
                <equation-count count="0"/>
                <ref-count count="41"/>
            </counts>
        </article-meta>
    </front>
    <body>
        <sec sec-type="intro">
            <title>Introdução</title>
            <p>Maria Clara Lucchetti Bingemer é uma das mais destacadas teólogas católicas da atualidade, tanto em termos nacionais quanto internacionais. Nascida no Rio de Janeiro, é leiga, professora de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e mantém forte atuação no Centro Loyola de Fé e Cultura, na Associação Latino-Americana de Literatura e Teologia e em outras redes de produção intelectual no Brasil e no exterior. Ela tem sido referência no campo acadêmico por suas pesquisas em diferentes áreas do pensamento teológico, em especial os temas da mística, da teologia feminista e de aspectos sistemáticos como escatologia, cristologia e pneumatologia, dentro do quadro das preocupações relativas à articulação da linguagem teológica para os tempos atuais, tendo em vista os principais desafios que a sociedade apresenta.</p>
            <p>Eu a conheci primeiramente por intermédio dos seus livros, ainda no meu tempo de estudante de Teologia no Rio de Janeiro, na primeira metade dos efervescentes anos de 1980. No último ano do curso, tive a grata satisfação de ler <italic>Escatologia cristã</italic>, publicado em conjunto com João Batista Libânio, sendo dela o último capítulo intitulado <italic>Inferno e céu</italic>: <italic>possibilidade e promessa</italic>. Quando li que “para designar o destino final dos homens e mulheres [...] – realização máxima, felicidade suprema, amor infinito – a fé cristã cunhou a palavra ‘céu’” (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Libânio; Bingemer, 1985</xref>, p. 285), eu me encantei! Os meus horizontes, que já eram abertos, tornaram-se ainda mais plurais e esperançosos.</p>
            <p>Nos meus primeiros anos de atividade pastoral, ao tentar responder demandas advindas do trabalho de nossa Pastoral da Mulher, desenvolvido na Baixada Fluminense, pude beber de fontes memoráveis, muito significativas à época, dos primeiros livros sobre teologia feminista publicados no Brasil. Nesse contexto, foram de enorme importância para mim e para o grupo duas obras que Maria Clara Bingemer publicou em conjunto com a igualmente renomada teóloga Ivone Gebara: <italic>A mulher faz Teologia</italic>, no qual reflete sobre a Trindade na perspectiva feminista; e <italic>Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Pobres</italic>: <italic>um ensaio a partir da mulher e da América Latina</italic>, da destacada coleção Teologia e Libertação (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Gebara; Bingemer, 1986</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B24">1987</xref>). Horizontes novos e plurais descortinavam-se para o contexto teológico e pastoral latino-americano.</p>
            <p>Posteriormente, tive o privilégio de ter Maria Clara Bingemer como professora no Programa de Pós-Graduação em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde desenvolvi os meus estudos. Sua presença crítica e envolvente nas aulas e nas bancas de avaliação das pesquisas que desenvolvi, bem como a atenção à minha produção e reflexão, foram importantes para a formação acadêmica que obtive. De tantos aspectos marcantes desse processo de desenvolvimento e pesquisa, destaco o ambiente plural e a convivência afetiva entre professores, professoras e estudantes, que incluíam pastores, padres, leigos e leigas. Tudo isso acompanhado, evidentemente, por seriedade acadêmica, solidez da formação do corpo docente e boa estrutura institucional. Em relação ao grupo de docentes – e Bingemer foi e é protagonista desse processo –, o ponto alto era a contribuição leiga, fundamental na formação teológica, uma vez que as análises apontam que os espaços clericalizados estão fadados ao insucesso e à irrelevância social (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Ribeiro, 2013</xref>).</p>
            <p>Depois disso, tenho desfrutado da companhia de Maria Clara Bingemer nas reuniões periódicas do Grupo Emaús, que reúne destacados teólogos, teólogas, cientistas sociais e ativistas no campo da pastoral popular. Nesse espaço, ainda que informal, tenho cotejado minha formação e valores teológicos com a conjuntura sociopolítica e eclesial, resultando em um enorme enriquecimento.</p>
            <p>Tais interpelações contribuíram, direta ou indiretamente, para a formulação do <italic>princípio pluralista</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Ribeiro, 2020</xref>). Vários aspectos do quadro de pluralismo religioso e de bases conceituais advindas de diferentes autores e autoras possibilitaram a elucidação desse princípio. Estão nessa lista: (i) as noções de “entrelugares e fronteiras da cultura” e a compreensão desses espaços como de fermentação de possibilidades sociais disruptivas, inovadoras e transformadoras, tendo em vista a superação dos mais variados esquemas de dominação (<xref ref-type="bibr" rid="B04">Bhabha, 2001</xref>); (ii) a relação criativa entre as “sociologias das ausências e das emergências”, associada aos processos de visibilidade, valoração e empoderamento de grupos subalternos (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Santos, 2010</xref>); (iii) as críticas às formas de “colonialidade do poder, do saber e do ser”, próprias dos estudos decoloniais (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Mignolo, 2008</xref>); (iv) as noções de alteridade ecumênica e de polidoxia, que possibilitam visões novas, dialógicas e mais justas em relação às pessoas e grupos com os quais nos relacionamos (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Pui-Lan, 2015</xref>); (v) o valor do cotidiano para as análises sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Gebara, 2017</xref>); (vi) as perspectivas científicas que valorizam as dimensões da transdisciplinaridade (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Morin, 2010</xref>); e (vii) o caráter desafiador e de difícil compreensão das múltiplas participações religiosas (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Tostes, 2020</xref>) que uma mesma pessoa ou coletividade possui, somado às formas de trânsito religioso e de transreligiosidade (<xref ref-type="bibr" rid="B03">Aragão, 2020</xref>) vivenciadas de forma tão comum na realidade cultural brasileira. Todos esses pontos são importantes para as reflexões propostas a seguir e, de certa forma, estão engendrados em nossa análise.</p>
            <p>Nesse mesmo caminho, as leituras de vários textos de Bingemer, de diferentes épocas e enfoques temáticos, foram significativas e contribuíram fortemente para a minha busca e manutenção de um pensamento arejado, crítico e interpelador das questões que marcam a complexidade do cenário cultural, social e religioso. Na presente abordagem, após fazer um balanço na produção teológica da autora, realço três aspectos, interconectados, nos quais Bingemer colaborou diretamente: a perspectiva teológica feminista; a relação entre espiritualidade, pluralismo e diálogo; e as perspectivas abertas, dialógicas e inter-religiosas de mística e de alteridade.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>“O segredo feminino do Mistério”</title>
            <p>Autora de diversas obras, Bingemer destacou-se desde os anos de 1980 na reflexão sobre os temas teológicos vistos sob a perspectiva da mulher, especialmente no trabalho do programa ecumênico Mulher e Teologia, do Instituto de Estudos da Religião, além de sua atuação docente na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro<bold><xref ref-type="fn" rid="fn02">2</xref></bold>. Nessa mesma época e contexto, ela organizou a obra O Mistério de Deus na mulher, com textos de destacadas teólogas, como Ivone Gebara, Elza Tamez e Ana Maria Tepedino, e com a descrição dos principais aspectos e propostas do referido programa, naquele momento considerado bastante inovador (<xref ref-type="bibr" rid="B05">Bingemer, 1990a</xref>).</p>
            <p>Essa iniciativa possibilitou a publicação de <italic>O lugar da mulher</italic>, pelo qual nos foi possível compreender mais adequadamente o estado da questão da reflexão teológica da mulher e seu lugar na Igreja Católica, e, assim, fazíamos as interações necessárias para o contexto protestante, nossa área de atuação (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Bingemer, 1990d</xref>). Nesse livro, Bingemer dialoga com teólogas contemporâneas e documentos do magistério da Igreja Católica na tentativa de mostrar a urgência de que a mulher ocupe o espaço que lhe cabe dentro da comunidade eclesial.</p>
            <p>Posteriormente, <xref ref-type="bibr" rid="B17">Bingemer (1991)</xref> publicou <italic>O segredo feminino do Mistério</italic>: <italic>ensaios de teologia da ótica da mulher</italic>, que constitui numa coletânea de seus textos sobre o tema. O objetivo era socializar as reflexões, boa parte delas construídas coletivamente nos espaços ecumênicos de articulação de teólogas, forjadas no caminho de buscar uma combinação, a mais precisa e entusiasmante possível, entre racionalidade e rigor analítico, por um lado, e desejos, afetos e sentimentos, por outro. Assim, os textos revelam que a mulher, ao fazer teologia, vivencia uma experiência mística e, da mesma forma, exerce uma mistagogia, na medida em que executa a arte de conduzir outros ao Mistério. Para a autora, seguindo a força do pensamento teológico feminista, o Mistério de Deus tem, em si mesmo, o feminino, Pai e Mãe. Na profundidade amorosa desse Mistério, homens e mulheres podem encontrar referências existenciais e práticas para recriar suas identidades, não para viver isolados, mas em reciprocidade e amor.</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>Ao chegar aí, percebi haver chegado bem perto do “segredo”, cujo desejo me possibilitara começar a buscar. Este “chegar perto”, porém, longe de fazer-me descansar e parar de procurar, faz-me, pelo contrário, hoje como ontem, hoje mais do que nunca, desejar mais profundamente ainda a Quem só <italic>conheço porque reconheço</italic> Sua presença em mim, no mundo, no rosto dos outros, sobretudo no rosto dos pobres, das mulheres e de todos os que são colocados à margem da vida</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B17">Bingemer, 1991</xref>, p. 11).</attrib>
                </disp-quote></p>
            <p>Em <italic>Experiência de Deus em corpo de mulher</italic>, cujo título representa um referencial para a teologia feminista na América Latina e outros continentes, Bingemer analisa a emergência eclesial e social da mulher, a sua vocação e ministério, as barreiras estabelecidas pelas razões históricas e culturais excludentes, pela hermenêutica limitada das Sagradas Escrituras e pela patriarcalização da cristologia. A autora propõe um modelo relacional, integrador das contribuições de mulheres e homens, que busca beneficiar a sociedade e as igrejas, e mostra que a partir dele é possível se chegar a uma nova antropologia de caráter mais integrado, que coopere com uma reflexão teológica libertadora (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Bingemer, 2002a</xref>). Assim, a comunidade teológica será composta de pessoas que, “em sua tentativa de pensar e falar sobre o mistério de Deus, refletirão em sua vida e em sua práxis a imagem desse mesmo Deus, que veio realizar com o gênero humano relações de aliança e cumplicidade na pessoa de Jesus Cristo” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Bingemer, 2002</xref>a, p. 24).</p>
            <p>Para a formulação do <italic>princípio pluralista</italic>, essas e outras perspectivas das teologias feministas foram e continuam sendo de fundamental importância, tanto do ponto de vista metodológico quanto no nível dos conteúdos. Não são poucos os desafios que emergem dessa perspectiva teológica. Em nossa pesquisa, chegamos a alguns resultados, e um deles tem relação com as formas pelas quais o conhecimento é produzido.</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>Como a lógica feminista trabalha com as dimensões concretas da vida, considerando toda a sua complexidade, ela passa a questionar os discursos científicos majoritários que, por estarem marcados pela lógica masculina, arvoram uma falsa universalidade, uma vez que dissimulam a particularidade possuída. O conhecimento humano em geral, assim como o teológico em particular, a partir da crítica feminista, precisariam assumir o questionamento ao universalismo das ciências, superar o idealismo masculino presente nas elaborações teóricas que relegam a mulher à dimensão da natureza e o homem à dimensão da cultura, valorizar o relativismo cultural com suas diferentes formas de interpretar o mundo, valorizar a diversidade, a diferença, a interdependência de todos os seres e o cotidiano tanto na esfera científica como na dimensão prática e política e, especialmente, ser propositivo no tocante a uma ética plural em que as próprias pessoas e grupos possam refletir sobre suas realidades e encontrar novos caminhos</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B31">Ribeiro, 2016b</xref>, p. 195).</attrib>
                </disp-quote></p>
            <p>A pressuposição é que os esforços de revisão da Teologia Latino-Americana, se efetuados sob ótica do <italic>princípio pluralista</italic>, precisam recorrer ao espírito das análises autocríticas, dentre as quais já indicamos algumas anteriormente<bold><xref ref-type="fn" rid="fn03">3</xref></bold>, e à crítica teológica feminista, em função do seu caráter inovador e da contundência e substancialidade de suas argumentações teóricas<bold><xref ref-type="fn" rid="fn04">4</xref></bold>. O foco na contribuição teórica da Teologia Feminista está em função das posturas críticas, sobretudo em relação ao método teológico. Tais perspectivas – que abarcam os questionamentos às visões patriarcais, ao antropocentrismo, à desvalorização do cotidiano e às formas ideológicas de compreender a sexualidade humana – contribuíram de maneira singular e desafiadora para a formulação do <italic>princípio pluralista</italic>.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>Espiritualidade, pluralismo e diálogo</title>
            <p>Os setores acadêmicos têm sido cada vez mais desafiados pelos temas relativos à religião, especialmente pelas tensões entre a racionalidade moderna e a emergência das subjetividades que marcaram o desenvolvimento do pensamento no final do século passado em diferentes continentes. A explosão mística e religiosa vivenciada no final do século 20 e nas duas primeiras décadas do 21, em diferentes contextos socioculturais, revela, entre outros aspectos, um esgarçamento da razão moderna como doadora de sentido para a humanidade (<xref ref-type="bibr" rid="B04">Bhabha, 2001</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B26">Mignolo, 2008</xref>).</p>
            <p>Décadas atrás, Maria Clara Bingemer, que tem dedicado muitos esforços para compreender a intensificação das experiências religiosas naquilo que por diversas vezes chamou de “sedução do sagrado”, já indicara que:</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>Insatisfação, vazio, desencanto, são sinônimos de vulnerabilidade, fragilidade emocional. E essa vulnerabilidade é terreno fértil para a sedução, que pode vir como sedução do Sagrado. [...] Nossas igrejas, com seu aparato institucional, sua hierarquia solidamente estruturada, seu bem preciso código de ética, suas liturgias pouco ou nada participativas, parece que perderam sua capacidade de sedução [...]</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B09">Bingemer, 1990b</xref>, p. 5).</attrib>
                </disp-quote></p>
            <p>Além desse aspecto, um olhar mais detido tem sido crescente no campo da teologia e das ciências da religião quanto aos desafios que as aproximações entre distintas experiências religiosas têm produzido. Não obstante o fortalecimento institucional e popular de propostas religiosas com acentos mais sectários e verticalistas – em geral, conflitivas e fechadas ao diálogo, marcadas por violência simbólica e de caráter fundamentalista –, o campo religioso tem experimentado também formas ecumênicas de diálogo entre grupos religiosos distintos (<xref ref-type="bibr" rid="B02">Aragão, 2023</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B39">Teixeira, 2014</xref>).</p>
            <p>Diante desse quadro, surgem diferentes perguntas: como tal realidade, especialmente com suas contradições, incide no quadro social e político? Como elas interferem mais especificamente no fortalecimento de uma cultura democrática e de práticas afins? Qual é o papel de uma espiritualidade ecumênica em um projeto de paz e de aprofundamento da democracia para as futuras gerações? Essas e outras questões similares não encontram respostas razoavelmente seguras. Há um longo e denso caminho de reflexão em direção ao amadurecimento delas. Os limites de nossa reflexão no momento não possibilitam equacioná-las, todavia alguns passos precisam ser dados.</p>
            <p>Temos apresentado, em diferentes trabalhos (<xref ref-type="bibr" rid="B32">Ribeiro, 2012</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B34">2014</xref>), uma modesta síntese de alguns elementos da espiritualidade decorrente de experiências ecumênicas entre distintos grupos religiosos. Elas, em nosso ver, suscitam novos referenciais teóricos para se pensarem futuramente as relações, complexas por suposto, entre religião e sociedade. Algo que julgamos relevante para uma espiritualidade de matiz ecumênica que responda, pelo menos em parte, aos desafios de uma teologia das religiões para os nossos dias, arquitetada sob a égide do <italic>princípio pluralista</italic>, é a possibilidade de dar maior visibilidade a caminhos criativos e plurais – ou mesmo construí-los – que realcem a mística inter-religiosa e o diálogo, em especial relacionados à alteridade ecumênica, em seu sentido amplo, e que mantenham horizontes amplos dos compromissos éticos socialmente responsáveis. Para isso, foi necessário beber de muitas e variadas fontes<bold><xref ref-type="fn" rid="fn05">5</xref></bold>.</p>
            <p>Bingemer, por exemplo, a partir do ponto de vista pneumatológico, já estruturara sua reflexão sobre o diálogo inter-religioso quando integrou um dos marcos desse tema no Brasil, a obra <italic>Diálogo de pássaros</italic>: <italic>nos caminhos do diálogo inter-religioso</italic>, organizada por Faustino <xref ref-type="bibr" rid="B40">Teixeira (1993)</xref>. Nela, a autora indicou “a Pneumatologia como possibilidade de diálogo e missão universais” ao destacar que salvação é um dom do Espírito para toda a criatura e que a presença do Espírito de Deus dentro dos seres humanos “altera e afeta suas mais profundas e essenciais categorias antropológicas constitutivas, subvertendo radicalmente os fundamentos do seu ser” (<xref ref-type="bibr" rid="B08">Bingemer, 1993a</xref>, p. 114).</p>
            <p>Uma década depois, ao reforçar a perspectiva trinitária, a teóloga insiste no mistério da revelação e no valor da pluralidade. O primeiro, ao indicar, seguindo as trilhas do pensamento agostiniano, “que é impossível entender, captar completamente o Deus Uno e Trino da nossa fé. Mas é possível, sim, conhecê-lo na medida em que ele mesmo revela seu Mistério aos sedentos e amorosos que o buscam” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Bingemer; Feller, 2003</xref>, p. 14). O segundo, a pluralidade, por entender que não se trata de mera questão de diferenciação humana, mas uma percepção de que sistema algum pode se pretender como tendo respostas absolutas e que abranjam toda a realidade, pois todo discurso com pretensões à universalização e à totalização é redutor, inadequado e gera indiferença e desencantamento. Tais perspectivas marcaram decisivamente o pensamento teológico da autora.</p>
            <p>Embora existam nexos entre violência e religião, herdados de longas tradições culturais e religiosas e que ainda marcam os tempos atuais, há, não obstante a isso, elementos dentro das próprias dinâmicas e conceituações religiosas que são geradores da paz (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Pikaza, 2008</xref>). Ligada a essa postura está a dimensão ética. Para as religiões monoteístas, que têm como base a revelação e o caráter profético, “a incondicionalidade e universalidade das exigências éticas é o Incondicional que se revela e faz presente em todo o condicionado, o Sentido último e radical do homem, ao qual chamamos Deus” (<xref ref-type="bibr" rid="B07">Bingemer, 2004</xref>, p. 13). A divindade amorosa que busca redimir a humanidade é o balizador ético que impulsiona todos e todas a fazerem o mesmo ato redentor, e daí surgem diferentes desafios e possibilidades, todos conectados com as bases conceituais do <italic>princípio pluralista</italic>. O mais fecundo é o da “escuta”; saber ouvir o diferente. Trata-se da</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>[...] tentativa de nos submeter à verdade onde quer que ela se encontre, aceitando o pluralismo de perspectivas e de nomes, quaisquer que eles sejam e onde quer que pulse o coração da vida. Esta missão é “sair” da violência mimética e redutora da alteridade do outro e entrar numa dinâmica de paz polifacética e plural</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B06">Bingemer, 2001</xref>, p. 288).</attrib>
                </disp-quote></p>
            <p>A pluralidade religiosa tem sido vivida nas tensões tanto em relação ao processo de secularização como no que se refere à convivência conflitiva das diferentes religiões. O pressuposto é que a vivência atual, bastante distinta das gerações passadas, tem sido estabelecida nos entrelugares interativos que, por um lado, são marcados por formas de ateísmo, de descrença e de indiferença religiosa, e, por outro, pelo fortalecimento e reavivamento de várias experiências religiosas, novas e tradicionais. Bingemer chama a atenção para o fato de que a convivência entre pessoas e grupos de variadas religiões gera um tipo de dilaceramento entre o amor e a verdade. Ou seja, na medida em que há o desejo e o próprio movimento de ir em direção ao outro, escutá-lo e aprender dele, as verdades e identidades preestabelecidas passam por processos desconstrutivos, e todas as partes envolvidas são chamadas a reconstruir “processos graciosos e recíprocos” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Bingemer, 2002</xref>b, p. 321).</p>
            <p>Uma das questões que a autora apresenta é se a secularização é inimiga ou amiga da fé. Para respondê-la, podemos lembrar que no próprio contexto da fé judaico-cristã já se encontra uma interface com uma visão “mundana do mundo” em que a experiência religiosa não se impõe como compreensão unívoca, mas dirige-se a uma emancipação do ser humano em relação à religião. Isso dá-se de variadas formas como, por exemplo, o valor da dimensão humana e histórica no processo de encarnação, o plano das lutas pela justiça e pelos direitos que, mesmo sendo sagradas, são travadas na secularidade, a importância da Criação que, embora tenha uma interpretação religiosa, pois é de Deus, possui sua realidade terrena, imanente. Trata-se de uma interpretação positiva dos processos de secularização que veem a emancipação humana não como o “crepúsculo de Deus”, mas como reforço ao que já está engendrado na revelação bíblica (<xref ref-type="bibr" rid="B06">Bingemer, 2001</xref>).</p>
            <p>Na mesma direção, perguntaríamos se a emancipação humana significaria o crepúsculo de Deus. Isso porque tal visão nos levaria a uma face negativa que o contexto de modernidade e secularização produziu, uma vez que tal situação, embora tenha como perspectiva a emancipação de divindades heterônomas, impostas e ideologizadas por visões institucionalizadas, acaba por criar seus próprios deuses, secularizados, mas com o mesmo potencial idolátrico, a cujas leis todos devem obedecer cegamente. “Alguns desses novos deuses constituem verdadeiras idolatrias que interpelam profundamente a fé trinitária” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Bingemer, 2002b</xref>, p. 303).</p>
            <p>Para a autora, residem aí a “vendabilidade” de todas as coisas, que é o deus mercado, o culto à personalidade, o progresso visto como primazia em relação ao humano, o utilitarismo nas relações humanas, e o poder e o prazer desprovidos de alteridade e de sentido. Dessa forma, tanto os processos modernos de emancipação humana quanto as experiências religiosas podem se encontrar na busca de caminhos ante a vulnerabilidade das pessoas e de grupos diante desses novos deuses e ídolos ou também ante a perplexidade que o novo e complexo quadro religioso apresenta.</p>
            <p>Nessas trajetórias – autênticas aventuras espirituais, segundo a autora – dão-se possibilidades criativas e profícuas de adesão livre à fé, que geram experiências religiosas mais autênticas, abertas e com dimensões cósmicas. “A teologia das religiões [...] estabelece, na escala do cosmo, uma maravilhosa convergência no mistério do Cristo, de tudo que Deus em seu Espírito, realizou ou continua a realizar na história da humanidade” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Bingemer, 2002</xref>b, p. 318).</p>
            <p>Diante dessas e de outras questões, podemos perceber traços de uma sacralidade para os tempos difusos e confusos em que vivemos hoje. Bingemer leva-nos a refletir sobre a experiência mística, dentro do quadro referencial da teologia cristã e da interpelação das múltiplas interfaces da realidade, até aqui descritas. A autora a compreende como expressão da experiência do amor e da caridade que alcança as profundezas da vivência humana a partir da sedução da alteridade. Essa perspectiva também está na base do <italic>princípio pluralista</italic>, como destacaremos na sequência. Bingemer analisa a “religião do outro” como desafio singular de uma interface a ser explorada e de “um caminho a ser feito em direção a uma comunhão que não suprima as diferenças, enriquecedoras e originais, mas que encontre, na sua inclusão, um ‘novo’ no qual se pode experimentar coisas novas suscitadas e propiciadas pelo mesmo Deus” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Bingemer, 2002b</xref>, p. 320).</p>
            <p>A espiritualidade que perpassa tal perspectiva gera abertura e acolhimento do outro. No tocante à teologia, uma visão ecumênica abre-se.</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>A partir dessa face plural, geradora de uma interface plurirreligiosa, a experiência do sagrado realizada dentro do cristianismo, em outras palavras, a mística cristã hoje é interpelada e chamada a aprender das experiências místicas e espirituais de outras religiões. E isso, não para deixar de ser cristã, mas para que a experiência de Deus que está no coração de sua identidade dê e alcance toda a sua medida.</p>
                    <p>Assim como há algo que só o outro gênero, o outro sexo, a outra cultura, a outra raça, a outra etnia, podem ensinar sobre mística, há também, sem dúvida, algo que apenas a religião do outro, na sua diferença, pode ensinar, ou enfatizar. Às vezes, trata-se simplesmente de um ponto ou uma dimensão que descobrimos na nossa experiência religiosa, mas do qual ainda não nos havíamos dado conta</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B20">Bingemer, 2002</xref>b, p. 319).</attrib>
                </disp-quote></p>
            <p>Os temas relacionados aos debates sobre espiritualidade, pluralismo e diálogo são abordados por Bingemer ao longo de sua obra a partir de diferentes referenciais teóricos. Entre eles, sobressaem-se sobretudo as teologias trinitárias, como as de Jürgen Moltmann, por exemplo, e perspectivas da teologia católica conciliar moderna, dialógica e ecumênica, com destaque para os escritos de Karl Rahner. No campo latino-americano, Bingemer dialoga com as visões pluralistas e com a valorização da relação entre teoria e prática, especialmente de Leonardo Boff e João Batista Libânio. Esse conjunto de referências, somado a diversas visões que ganham relevância quando os temas abordados por Bingemer são outros, oferecem amplitude temática e metodológica ao trabalho dela. Isso explica a ênfase da autora em vários aspectos que marcam o cenário da reflexão teológica na atualidade.</p>
            <p>Nesse sentido, a valorização da pluralidade religiosa, a recuperação do sentido espiritual da gratuidade, a crítica às formas de fixismo, o interesse e inclinação para se repensarem categorias filosóficas e teológicas tradicionais, a interface com as ciências e com a espiritualidade, a abertura à sedução gratuita do sagrado como possibilidade amorosa e realizadora e o diálogo com tradições religiosas diferentes formam placas de um caminho que necessita ser reinventado a cada momento (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Bingemer, 2020</xref>). Tais indicações, presentes na produção teológica da autora, foram importantes na formulação do <italic>princípio pluralista</italic>, uma vez que todos esses aspectos compõem as bases conceituais dele (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Ribeiro, 2020</xref>) e acompanham, em larga medida, o aprofundamento dessa visão com a qual temos concebido as pesquisas sobre a pluralidade religiosa e cultural dentro dos estudos de religião.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>Mística inter-religiosa e alteridade</title>
            <p>Tendo em vista a formulação do <italic>princípio pluralista</italic>, interessou-nos a reflexão teológica de Bingemer por manter horizontes mais amplos quando, por exemplo, ela aprofunda temas da existencialidade humana. A teóloga desenvolve essa tarefa em várias de suas obras, nas quais realça a complexa relação entre fé e razão, busca interfaces mais amplas como aquela entre religião e literatura e propõe temas associados ao valor da alteridade e o das formas criativas e plurais de espiritualidade<bold><xref ref-type="fn" rid="fn06">6</xref></bold>.</p>
            <p>Como temos mostrado, o esforço pela identificação da “sedução do sagrado” conferiu a <xref ref-type="bibr" rid="B11">Bingemer (1990c</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B10">1993b)</xref> o interesse pelos temas da alteridade e da mística, como nas obras anteriores <italic>Em tudo amar e servir: mística trinitária e práxis cristã em Santo Inácio de Loyola</italic>, que foi sua tese doutoral, e <italic>Alteridade e vulnerabilidade</italic>: <italic>experiência de Deus e pluralismo religioso no moderno em crise</italic>. Nesta última, ela realça que “a experiência de Deus aparece como a grande via por onde pode passara o ansiado diálogo do cristianismo não só com o mundo moderno, mas também com as outras tradições religiosas” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Bingemer, 1993b</xref>, p. 14).</p>
            <p>Dentre as variadas obras da autora, destacamos também os dois livros sobre a Trindade e Graça que publicou em conjunto com Vitor Galdino Feller: <italic>Deus Trindade</italic>: <italic>a vida no coração do mundo e Deus-amor</italic>: <italic>a graça que habita em nós</italic>. São reflexões que partem da experiência e da vida, apresentando fios condutores da revelação de Deus na Bíblia e na história dos dogmas, considerando a comunicação da fé cristã em um mundo plural (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Bingemer; Feller, 2002</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B21">2003</xref>). Elas ressaltam a graça de Deus que, habitando no ser humano, o configura sempre mais à imagem de Jesus Cristo, o inspirando no exercício do louvor, do amor e do serviço. A relação entre graça divina e liberdade humana é compreendida no enquadramento do difícil, mas fecundo, diálogo entre fé cristã e cultura moderna. Na perspectiva de realçar a experiência e o conhecimento que advêm dela, tais reflexões indicam que a narrativa será sempre a melhor forma de manifestar a fé e a religiosidade, de maneira que estas sejam expressas e acolhidas satisfatoriamente pelos seres humanos de hoje. Não se trata de uma busca pelas verdades que podem ser afirmadas e sistematizadas sobre um Ser Supremo ou mesmo sobre um sistema de símbolos religiosos, mas de como o Divino se relaciona, ama e interage com os seres humanos e toda a Criação. “E o objeto da narrativa é o mistério de um Deus que se revela como <italic>mysterium salutis</italic> (mistério de salvação), não como <italic>mysterium logicum</italic> (mistério lógico)” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Bingemer; Feller, 2003</xref>, p. 29).</p>
            <p>Em <italic>A argila e o Espírito</italic>: <italic>ensaios sobre ética, mística e poética</italic>, Bingemer enfatiza a dimensão da ética, suscitada especialmente pelas questões da violência. Para isso, recorre ao pensamento da filósofa francesa Simone Weil e de autores como Emanuel Levinas, Martin Buber, René Girard, Karl Rahner e Jürgen Moltmann, integrando as perspectivas judaicas com a luz crística dos pensadores cristãos. A autora faz a análise do plano ético pelo viés das questões de gênero, e, nesse sentido, destaca figuras femininas que se notabilizaram justamente por sua luminosidade e visão ética. Tais reflexões são também marcadas pelo diálogo entre teologia e literatura, a teopoética, que também caracteriza a produção intelectual da autora (<xref ref-type="bibr" rid="B07">Bingemer, 2004</xref>). Assim, por intermédio dessas três dimensões ou áreas – ética, gênero e teopoética –, Bingemer tece um amálgama teológico no qual a ética é tecida com a mística, a partir da perspectiva de gênero que realça a condição de humanidade, e com o recurso à inspiração poética.</p>
            <p>Em <italic>Um rosto para Deus?</italic>, a autora indica os desafios que a pluralidade cultural e religiosa apresenta à fé cristã e ao pensamento teológico. Ela analisa que o mundo não é mais como aquele onde viveram os antepassados, em décadas ou séculos anteriores, cercados de símbolos, de sinais e de afirmações explícitas da fé cristã, sobretudo católica (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Bingemer, 2005</xref>). Na atualidade, a religião, em boa parte das vezes, desempenha mais o papel de cultura e força civilizatória ou política do que propriamente de credo e de adesão que configura sentido de fé para a vida. Bingemer aponta que tal pluralidade implica a existência de narrativas distintas e de tentativas de discursos diferentes sobre o sagrado ou as diversas expressões de sacralidade, segundo os contextos em que se vive. Tais discursos são configurados em maior ou menor proporção pelo fenômeno da secularização, assim como pela convivência conflitante, indiferente ou harmoniosa das distintas religiões, tanto as tradições mais antigas e institucionalizadas quanto também os novos movimentos religiosos que a cada dia geram novas sínteses para expressar a busca do ser humano de hoje por Deus, em variadas nomeações e expressões.</p>
            <p>Os temas relacionados à mística e à alteridade são centrais no pensamento de Bingemer e foram desenvolvidos no conjunto de sua obra com uma metodologia que leva em conta, pelo menos, três eixos de referências. O primeiro é o conjunto de reflexões que tratam da crise da racionalidade moderna sob diferentes ângulos e perspectivas. A autora percorre caminhos que vão da interpelação crítica da filosofia da religião do jesuíta Henrique Claudio de Lima Vaz, na busca de linguagens adequadas para as experiências de Deus no contexto moderno, até a atualidade do pensar filosófico com as desconstruções ideológicas de Slavoj Zizek.</p>
            <p>O segundo eixo importante no tocante aos temas relativos à alteridade diz respeito às perspectivas da prioridade ética, de valorização do “face a face” e da responsabilidade diante do outro, de Emmanuel Levinas, e a mística ecumênica e dialógica, de Thomas Merton. Por fim, o terceiro eixo é a atenção e interesse pela história de vida e pelos escritos de mulheres que se notabilizaram pela experiência mística associada à militância social e política, como Simone Weil, Dorothy Day, Etty Hillesum e outras. Os três eixos formam um conjunto de interações temáticas e metodológicas que oferecem à produção científica, não somente a teológica, densidade e possibilidades de arejamento conceitual.</p>
            <p>Entrelaçamentos dessa natureza foram fundamentais na formulação do <italic>princípio pluralista</italic>, uma vez que ele realça o valor da alteridade, não somente para as iniciativas práticas e teológicas, mas também para as análises científicas da pluralidade religiosa e cultural. A alteridade, como a possibilidade humana de se relacionar com as realidades, grupos e pessoas diferentes de nós mesmos, é elemento fundamental da fé.</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>Trata-se de uma postura, método ou sistema de ferramentas científicas que permitem redimensionar, em perspectiva, a realidade. Assim, a plausibilidade de dado sistema (religioso ou cultural) se evidenciaria no convívio com o “outro”, e não na confrontação apologética, tentando desqualificá-lo. Desta forma, permite-se uma possibilidade criativa de aproximação e de convívio da qual decorrerá melhor compreensão do “outro”, que não mais será visto como exótico, como inimigo, como inferior ou como qualquer outra forma de desqualificação. É com esta perspectiva que recorremos à concepção de alteridade para a teologia e para as ciências da religião</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B33">Ribeiro, 2020</xref>, p. 386).</attrib>
                </disp-quote></p>
            <p>Na continuidade de sua obra, Bingemer oferece substancial contribuição para a temática da alteridade e da mística no contexto atual com o livro <italic>O mistério e o mundo</italic>. O primeiro aspecto que se destaca em suas reflexões – e que nos interessa mais de perto em nossas análises – é o da assimilação da religião pelo sistema econômico. As experiências religiosas estão diretamente afetadas pelas transformações sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Bingemer, 2013</xref>). Ainda que os símbolos religiosos tenham sido ressignificados conforme as necessidades da dinâmica e da lógica econômica, a busca religiosa não perdeu força. Ela alterou suas formas e expressões. As antigas formas religiosas, de caráter mais formal e institucional, perderam espaço, e as novas, que favorecem a independência do indivíduo, florescem com vigor, pois “a busca de Deus e o desejo de uma espiritualidade crescem em igual proporção, desembocando em muitas praias que não são mais apenas nem principalmente as igrejas históricas” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Bingemer, 2013</xref>, p. 98). Tal perspectiva está também ligada ao fato de que o mundo “pós-moderno assimilou e apropriou-se da chamada queda das utopias de uma forma que objetivamente favoreceu a expansão e a predominância do modelo neoliberal” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Bingemer, 2013</xref>, p. 38).</p>
            <p>O segundo aspecto é o da pluralidade. Não obstante os modos de massificação, de padronização e de uniformização das experiências religiosas, em grande parte por estarem reféns das formas econômicas de consumo, a emergência de pluralidades será ainda a marca das sociedades, sobretudo no mundo ocidental, e desafiará permanentemente as análises sociais. Bingemer nos mostra que embora existam tendências de padronização cultural, muito dificilmente haverá nas próximas décadas uma uniformidade na cultura mundial, uma vez que os movimentos (inclusive religiosos) que advogam a pluralidade e fazem o questionamento das identidades convencionais ou artificialmente criadas têm um potencial crítico suficiente para manter viva a variedade de crenças e valores nos mais distintos setores da sociedade (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Bingemer, 2013</xref>).</p>
            <p>O terceiro aspecto é o poder do testemunho místico presente nas diferentes religiões. A experiência sedenta e sedutora com o Divino não se torna inerte e insensível à realidade humana e cósmica, mas se defronta criativamente com as transitoriedades e ambiguidades da vida, sendo canal de novas linguagens e ações consequentes e socialmente responsáveis.</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>O Absoluto faz dessa experiência o princípio norteador de sua vida. Neste sentido, a testemunha e sua narrativa se infiltram, por assim dizer, na volatilidade e na efemeridade do mundo, fazendo de verdade sua biografia, sua história de vida e expondo-se à ousadia de inventar uma nova lógica e uma nova linguagem para dizer o Absoluto e a verdade da qual a humanidade tem inextinguível sede</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B16">Bingemer, 2013</xref>, p. 310).</attrib>
                </disp-quote></p>
            <p>O valor da dimensão mística e da pluralidade é considerável, tendo em vista uma revisão do método teológico e uma análise mais aprimorada das experiências religiosas que marcam o nosso contexto. Como visto, as experiências religiosas estão diretamente afetadas pelas transformações sociais e econômicas, e ainda que os símbolos religiosos tenham sido ressignificados de acordo com as necessidades do sistema econômico, a busca religiosa não perdeu força, embora tenha alterado suas formas e expressões tradicionais. Não obstante as formas de massificação, de padronização e de uniformização das experiências religiosas – em grande parte por estarem reféns das formas econômicas de consumo –, a pluralidade é marca significativa das sociedades hoje.</p>
            <p>Em outra obra, Bingemer, no tocante à Teologia Latino-Americana da Libertação, mostra a criatividade dessa produção ao ampliar o foco para além das questões econômicas, mas em conexão com elas. Trata-se de</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>[...] sua atenção em outras pobrezas – antropológicas –, como as que estão relacionadas com a ecologia, o gênero e o diálogo inter-religioso. Fez isso de tal modo que sempre irá se manter conectada com as posições centrais da América Latina: libertação de todos os tipos de opressão e luta contra as exclusões e discriminações de toda a ordem (raça, sexo, etnia e assim por diante), e de todas as formas de dominação e preconceito</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B18">Bingemer, 2016</xref>, p. 118).</attrib>
                </disp-quote></p>
            <p>Uma série de nexos e correlações ocorrem entre as concepções até aqui descritas e as bases conceituais do princípio pluralista, especialmente porque tal formulação foi feita a partir de lógicas ecumênicas e de alteridade, o que, a nosso ver, possibilita melhor compreensão da diversidade do quadro religioso e também das ações humanas. O <italic>princípio pluralista</italic> é compreendido como</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>um instrumento hermenêutico de mediação teológica e analítica da realidade sociocultural e religiosa que procura dar visibilidade a experiências, grupos e posicionamentos que são gerados nos “entrelugares”, bordas e fronteiras das culturas e das esferas de institucionalidades. Ele possibilita divergências e convergências novas, outros pontos de vista, perspectivas críticas e autocríticas para diálogo, empoderamento de grupos e de visões subalternas e formas de alteridade e de inclusão, considerados e explicitados os diferenciais de poder presentes na sociedade</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B33">Ribeiro, 2020</xref>, p. 25).</attrib>
                </disp-quote></p>
            <p>A pluralidade constantemente questiona identidades convencionais e dadas por supostas, por isso contém potenciais de conflitos criativos e de busca de caminhos de paz, de justiça e de alteridade. Tais perspectivas são fundamentais ao <italic>princípio pluralista</italic>.</p>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>Considerações Finais</title>
            <p>A complexa realidade social e religiosa que hoje enfrentamos, especialmente o pluralismo religioso, interpela fortemente a produção teológica latino-americana. Entre os desafios, está a construção de uma lógica plural para o método teológico, o que ressalta ainda mais a importância das questões ecumênicas e de gênero para as reflexões teológicas atuais e o valor da mística inter-religiosa e da alteridade para a vivência humana, elementos cruciais do <italic>princípio pluralista</italic>, e que estão presentes na obra da teóloga Maria Clara Bingemer, foco de nossa análise.</p>
            <p>O pluralismo religioso, tanto em sua face sociológica quanto em seu valor teológico, desafia as diferentes fés, de maneira especial quando há diferenciais de poder entre elas que não possibilitam relações justas e que não promovam a justiça, a paz e a democracia. Para as questões relativas à fé cristã, majoritária em nossas terras e em outras partes do globo, tal fato requer esforços científicos críticos de compreensão da realidade, devido à complexidade do quadro sociorreligioso e às questões de poder nele envolvidas. Tal situação também demanda formas de discernimento teológico, em função da instabilidade e das possibilidades que a pluralidade e a alteridade geram, e ações concretas de intervenção prática, pois diante de realidades plurais, em geral, exigem-se posicionamentos mais nítidos em favor do empoderamento de grupos subalternos que levem à justiça e à paz no mundo.</p>
            <p>Em nossa reflexão, foi destacada, a partir da produção teológica de Bingemer, a importância das questões de gênero para a construção do conhecimento e para o aprofundamento das análises das realidades sociais e eclesiais – complexas, por suposto. O esforço das teologias feministas em buscar imagens femininas de Deus está centrado nas expressões da fé em uma divindade não androcêntrica, que seja fonte de iluminação crítica das formas de patriarcalismos e sexismos. O foco é a vivência espontânea da fé que promova a cura e que valorize o corpo, a sexualidade, o cuidado e a proteção e a responsabilidade ética com a criação e a natureza. Sob o ponto de vista metodológico, há uma enorme lacuna desses aspectos no contexto teológico hegemônico latino-americano. Bingemer oferece significativa contribuição nessa área, e, em boa parte de seus escritos, o faz com o recurso à literatura e à teologia narrativa como formas de desvelamento da complexidade da realidade social, incluindo aspectos antropológicos e da diversidade cultural humana. Esse aspecto vai além das análises sociológicas e contribui para um alargamento metodológico, propiciado pelas interpretações teológicas da literatura, pelas teologias narrativas e pela teopoética.</p>
            <p>No tocante ao <italic>princípio pluralista</italic>, advogamos a necessidade de abordagens metodológicas sensíveis às alteridades, boa parte delas invisibilizadas pelas sedimentações socioculturais tradicionalistas e coloniais. Trata-se de um caminho que seja, sobretudo, capaz de acolher o contraditório e dar conta de conviver com a complexidade dos fenômenos e dos processos, sem com isso incorrer em equívocos metodológicos reducionistas que tendem a fracionar a realidade em polarizações maniqueístas.</p>
            <p>Nas análises apresentadas, realçamos a abertura ao diálogo e a prática interativa entre as religiões que a visão trinitária da fé cristã oferece. Indicamos que uma espiritualidade ecumênica que emerge do pluralismo religioso e cultural reforça e valoriza a dimensão mística e a alteridade, e isso incide de maneira concreta nos processos religiosos e sociais, favorecendo perspectivas utópicas, democráticas e doadoras de sentido. Todos esses aspectos são recorrentes nas propostas de teologia do pluralismo religioso e oferecem bases consistentes do <italic>princípio pluralista</italic>.</p>
            <p>A partir das reflexões feitas no decorrer desta pesquisa, é possível inferir um aspecto que não poderia nos escapar: a relação entre as expressões de fundamentalismo-intolerância, por um lado, e as de pluralismo-diálogo, por outro. Nosso destaque é que se trata de uma realidade ambígua, uma vez que as duas expressões são antagônicas e estão crescendo e se fortalecendo na sociedade. Tem sido comum no quadro religioso brasileiro, em diferentes confissões e tradições, uma concepção unilateral e absoluta da verdade que tende ao dogmatismo, o que inibe, entre outras coisas, o diálogo entre a fé e as ciências, entre religião e secularidade e entre grupos religiosos distintos. Há certa refutação religiosa das perspectivas antropológicas que levam em conta as formas de evolução do universo e da vida humana, as explicações mais racionais da vida e a possibilidade de visões plurais. Tais ideias, com longa história para além do contexto brasileiro, são recompostas com novas ênfases, mas mantêm resguardada certa oposição às formas de autonomia humana.</p>
            <p>No campo cristão, tanto católico-romano como evangélico, são visíveis, por exemplo, as reações contra posturas mais abertas no campo da sexualidade, especialmente no que se refere ao direito das mulheres – sobretudo ao próprio corpo, ao prazer e às formas de autonomia – e à homoafetividade. Para o debate sobre pluralismo religioso, consideramos que é de fundamental importância aprofundar, com base no <italic>princípio pluralista</italic>, as raízes dos fundamentalismos, compreendê-los bem, sem simplificações maniqueístas, e também efetuar um monitoramento das proposições acerca da realidade atual decorrentes dessas análises, pois elas poderão indicar novas variações e perfis que evidenciarão ainda mais a diferença religiosa. Ao lado disso, e com ênfase maior, é preciso mapear as experiências inter-religiosas e interculturais que têm alimentado a fé e a visão arejada e justa do mundo de centenas de grupos espalhados em diversos cantos e contextos.</p>
            <p>Os aspectos da obra de Bingemer apresentados nesta análise – a perspectiva teológica feminista, a relação entre espiritualidade, pluralismo e diálogo, e as perspectivas abertas e dialógicas de mística e de alteridade – são de fundamental relevância para uma elucidação mais adequada das questões descritas e de outras cujos estudos paralelos ou posteriores poderão apontar.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
        <fn-group>
            <fn fn-type="other" id="fn02">
                <label>2</label>
                <p>Um primeiro levantamento de dados referentes ao trabalho de Maria Clara Bingemer foi apresentado por mim no curso que ministrei no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, da Universidade Metodista de São Paulo, em 2015, sobre questões de método em Teologia a partir da crítica da Teologia Feminista Latino-Americana. Como resultado, produzi o texto <italic>Vozes de uma teologia feminista latino-americana</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Ribeiro, 2016a</xref>), no qual inseri, em síntese, as trajetórias de vida e as principais obras de quatro destacadas autoras: Ivone Gebara, Elza Tamez, Maria Clara Bingemer e Marcella Althaus-Reid.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn03">
                <label>3</label>
                <p>“A formulação do <italic>princípio pluralista</italic> tem sido efetuada a partir do enfrentamento de, pelo menos, três desafios, interligados entre eles, que emergem do quadro teológico latino-americano. Além das dificuldades de compreensão da complexidade da realidade socioeconômica e da difícil equação das relações entre racionalidade e subjetividade, os encontros e desencontros da teologia com a pluralidade também são desafiadores” (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Ribeiro, 2020</xref>, p. 437).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn04">
                <label>4</label>
                <p>Na formulação e desenvolvimento do princípio pluralista, além das indicações da teologia de Bingemer, se destaca a perspectiva feminista de Ivone <xref ref-type="bibr" rid="B22">Gebara (2017)</xref>, Marcella <xref ref-type="bibr" rid="B01">Althaus-Reid (2019)</xref>, Kwok <xref ref-type="bibr" rid="B29">Pui-Lan (2015)</xref> e Elza <xref ref-type="bibr" rid="B38">Tamez (2004)</xref>.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn05">
                <label>5</label>
                <p>Elas estão indicadas e descritas, com acento didático e introdutório, no livro <italic>Teologia das religiões em foco</italic>: <italic>um guia para visionários</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Ribeiro; Souza 2012</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn06">
                <label>6</label>
                <p>Tendo em vista os objetivos de nossa análise, mereceriam particular reflexão os livros sobre Simone Weil, inclusive traduzidos para outros idiomas, assim como ocorre com boa parte da produção teológica de Bingemer. Destacam-se: Simone Weil: a força e a fraqueza do amor (2007), <italic>Simone Weil</italic>: t<italic>estemunha da paixão e da compaixão</italic> (2014) e o que Bingemer organizou: <italic>Simone Weil – Ação e contemplação</italic> (2005). No entanto, por delimitação desta pesquisa, eles não foram priorizados e precisam ser analisados em oportunidade futura.</p>
            </fn>
        </fn-group>
        <fn-group>
            <fn fn-type="other">
                <p>Como citar este artigo: Ribeiro, C.O. Como a teologia de Maria Clara Bingemer ajudou-me na formulação do princípio pluralista. <italic>Reflexão</italic>, v. 49, e2410737, 2024. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.24220/2447-6803v49a2024e2410737">https://doi.org/10.24220/2447-6803v49a2024e2410737</ext-link></p>
            </fn>
        </fn-group>
        <ref-list>
            <title>Referências</title>
            <ref id="B01">

                <mixed-citation>Althaus-Reid, M. <italic>Deus queer</italic>. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2019.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Althaus-Reid</surname>
                            <given-names>M.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>Deus queer</source>
                    <publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
                    <publisher-name>Novos Diálogos</publisher-name>
                    <year>2019</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B02">

                <mixed-citation>Aragão, G. Leitura transreligiosa da diversidade espiritual. <italic>In</italic>: Ribeiro, C. O. (org.). <italic>Horizontes plurais</italic>: espiritualidades, pluralidades e diálogos. São Paulo: Pluralidades, 2023. p. 39-76.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Aragão</surname>
                            <given-names>G.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <chapter-title>Leitura transreligiosa da diversidade espiritual</chapter-title>
                    <person-group person-group-type="compiler">
                        <name>
                            <surname>Ribeiro</surname>
                            <given-names>C. O.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Horizontes plurais</italic>: espiritualidades, pluralidades e diálogos</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Pluralidades</publisher-name>
                    <year>2023</year>
                    <fpage>39</fpage>
                    <lpage>76</lpage>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B03">

                <mixed-citation>Aragão, G. Transreligiosidade. <italic>In</italic>: Ribeiro, C. O.; Aragão, G.; Panasiewicz, R. (org.). <italic>Dicionário do pluralismo religioso</italic>. São Paulo: Recriar, 2020. p. 288-295.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Aragão</surname>
                            <given-names>G</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <chapter-title>Transreligiosidade</chapter-title>
                    <person-group person-group-type="compiler">
                        <name>
                            <surname>Ribeiro</surname>
                            <given-names>C. O</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Aragão</surname>
                            <given-names>G</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Panasiewicz</surname>
                            <given-names>R</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>Dicionário do pluralismo religioso</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Recriar</publisher-name>
                    <year>2020</year>
                    <fpage>288</fpage>
                    <lpage>295</lpage>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B04">

                <mixed-citation>Bhabha, H. <italic>O local da cultura</italic>. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bhabha</surname>
                            <given-names>H</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>O local da cultura</source>
                    <publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
                    <publisher-name>Ed. UFMG</publisher-name>
                    <year>2001</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B05">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. (org.). <italic>O Mistério de Deus na mulher</italic>. Rio de Janeiro: ISER, 1990a.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="compiler">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>O Mistério de Deus na mulher</source>
                    <publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
                    <publisher-name>ISER</publisher-name>
                    <year>1990a</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B06">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. (org.). <italic>Violência e religião</italic>: Cristianismo, Islamismo, Judaísmo – três religiões em confronto e diálogo. São Paulo: Loyola, 2001.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="compiler">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Violência e religião</italic>: Cristianismo, Islamismo, Judaísmo – três religiões em confronto e diálogo</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Loyola</publisher-name>
                    <year>2001</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B07">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. <italic>A argila e o Espírito</italic>: ensaios sobre ética, mística e poética. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>A argila e o Espírito</italic>: ensaios sobre ética, mística e poética</source>
                    <publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
                    <publisher-name>Garamond</publisher-name>
                    <year>2004</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B08">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. A pneumatologia como possibilidade de diálogo e missão universais. <italic>In</italic>: Teixeira, F. (org.). <italic>Diálogo de pássaros</italic>: nos caminhos do diálogo inter-religioso. São Paulo: Paulinas, 1993a. p. 111-121.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <chapter-title>A pneumatologia como possibilidade de diálogo e missão universais</chapter-title>
                    <person-group person-group-type="compiler">
                        <name>
                            <surname>Teixeira</surname>
                            <given-names>F</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Diálogo de pássaros</italic>: nos caminhos do diálogo inter-religioso</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Paulinas</publisher-name>
                    <year>1993a</year>
                    <fpage>111</fpage>
                    <lpage>121</lpage>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B09">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. A sedução das seitas. <italic>Jornal do Brasil</italic>, Rio de Janeiro, 24 jun. 1990b.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="journal">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <article-title>A sedução das seitas</article-title>
                    <source>Jornal do Brasil</source>
                    <publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
                    <day>24</day>
                    <month>06</month>
                    <year>1990b</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B10">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. <italic>Alteridade e vulnerabilidade</italic>: experiência de Deus e pluralismo religioso no moderno em crise. São Paulo: Loyola, 1993b.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Alteridade e vulnerabilidade</italic>: experiência de Deus e pluralismo religioso no moderno em crise</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Loyola</publisher-name>
                    <year>1993b</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B11">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. <italic>Em tudo amar e servir</italic>: mística trinitária e práxis cristã em Santo Inácio de Loyola. São Paulo: Loyola, 1990c.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Em tudo amar e servir</italic>: mística trinitária e práxis cristã em Santo Inácio de Loyola</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Loyola</publisher-name>
                    <year>1990c</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B12">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. <italic>Experiência de Deus em corpo de mulher</italic>. São Paulo: Loyola, 2002a.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>Experiência de Deus em corpo de mulher</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Loyola</publisher-name>
                    <year>2002a</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B13">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. Faces e interfaces da sacralidade em um mundo secularizado. <italic>In</italic>: Lima, D.; Trudel, J. (org.). <italic>Teologia em diálogo</italic>. São Paulo: Paulinas, 2002b. p. 285-332.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <chapter-title>Faces e interfaces da sacralidade em um mundo secularizado</chapter-title>
                    <person-group person-group-type="compiler">
                        <name>
                            <surname>Lima</surname>
                            <given-names>D</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Trudel</surname>
                            <given-names>J</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>Teologia em diálogo</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Paulinas</publisher-name>
                    <year>2002b</year>
                    <fpage>285</fpage>
                    <lpage>332</lpage>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B14">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. Mística inter-religiosa. <italic>In</italic>: Ribeiro, C. de Oliveira; Aragão, Gilbraz; Panasiewicz, Roberlei (orgs.). Ribeiro, C. O.; Aragão, G.; Panasiewicz, R. (org.). <italic>Dicionário do pluralismo religioso</italic>. São Paulo: Recriar, 2020. p. 140-146.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <chapter-title>Mística inter-religiosa</chapter-title>
                    <person-group person-group-type="compiler">
                        <name>
                            <surname>Ribeiro</surname>
                            <given-names>C. de Oliveira</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Aragão</surname>
                            <given-names>Gilbraz</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Panasiewicz</surname>
                            <given-names>Roberlei</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>Dicionário do pluralismo religioso</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Recriar</publisher-name>
                    <year>2020</year>
                    <fpage>140</fpage>
                    <lpage>146</lpage>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B15">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. <italic>O lugar da mulher</italic>: interpretação feminina da Mulieres dignitatem. São Paulo: Loyola, 1990d.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>O lugar da mulher</italic>: interpretação feminina da Mulieres dignitatem</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Loyola</publisher-name>
                    <year>1990d</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B16">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. <italic>O mistério e o mundo</italic>. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>O mistério e o mundo</source>
                    <publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
                    <publisher-name>Rocco</publisher-name>
                    <year>2013</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B17">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. <italic>O segredo feminino do Mistério</italic>: ensaios de teologia da ótica da mulher. Petrópolis: Vozes, 1991.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>O segredo feminino do Mistério</italic>: ensaios de teologia da ótica da mulher</source>
                    <publisher-loc>Petrópolis</publisher-loc>
                    <publisher-name>Vozes</publisher-name>
                    <year>1991</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B18">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. <italic>Teologia latino-americana</italic>: raízes e ramos. Petrópolis: Vozes, 2016.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Teologia latino-americana</italic>: raízes e ramos</source>
                    <publisher-loc>Petrópolis</publisher-loc>
                    <publisher-name>Vozes</publisher-name>
                    <year>2016</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B19">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L. <italic>Um rosto para Deus?</italic> São Paulo: Paulus, 2005.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>Um rosto para Deus?</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Paulus</publisher-name>
                    <year>2005</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B20">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L.; Feller, V. G. <italic>Deus Trindade</italic>: a vida no coração do mundo. Valencia: Siquem, 2002.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Feller</surname>
                            <given-names>V. G</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Deus Trindade</italic>: a vida no coração do mundo</source>
                    <publisher-loc>Valencia</publisher-loc>
                    <publisher-name>Siquem</publisher-name>
                    <year>2002</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B21">

                <mixed-citation>Bingemer, M. C. L.; Feller, V. G. <italic>Deus-amor</italic>: a graça que habita em nós. São Paulo: Paulinas, 2003.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Feller</surname>
                            <given-names>V. G</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Deus-amor</italic>: a graça que habita em nós</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Paulinas</publisher-name>
                    <year>2003</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B22">

                <mixed-citation>Gebara, I. <italic>Mulheres, religião e poder: ensaios feministas</italic>. São Paulo: Terceira Via, 2017.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Gebara</surname>
                            <given-names>I</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>Mulheres, religião e poder: ensaios feministas</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Terceira Via</publisher-name>
                    <year>2017</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B23">

                <mixed-citation>Gebara, I.; Bingemer, M. C. L. <italic>A mulher faz teologia</italic>. Petrópolis: Vozes, 1986.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Gebara</surname>
                            <given-names>I</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>A mulher faz teologia</source>
                    <publisher-loc>Petrópolis</publisher-loc>
                    <publisher-name>Vozes</publisher-name>
                    <year>1986</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B24">

                <mixed-citation>Gebara, I.; Bingemer, M. C. L. <italic>Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Pobres</italic>: um ensaio a partir da mulher e da América Latina. Petrópolis: Vozes, 1987.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Gebara</surname>
                            <given-names>I</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Pobres</italic>: um ensaio a partir da mulher e da América Latina</source>
                    <publisher-loc>Petrópolis</publisher-loc>
                    <publisher-name>Vozes</publisher-name>
                    <year>1987</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B25">

                <mixed-citation>Libânio, J. B.; Bingemer, M. C. L. <italic>Escatologia cristã</italic>: o novo céu e a nova terra. Petrópolis: Vozes, 1985.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Libânio</surname>
                            <given-names>J. B.</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Bingemer</surname>
                            <given-names>M. C. L.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Escatologia cristã</italic>: o novo céu e a nova terra</source>
                    <publisher-loc>Petrópolis</publisher-loc>
                    <publisher-name>Vozes</publisher-name>
                    <year>1985</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B26">

                <mixed-citation>Mignolo, W. Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política. <italic>Cadernos de Letras da UFF</italic>, n. 34, p. 287-324, 2008.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="journal">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Mignolo</surname>
                            <given-names>W.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <article-title>Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política</article-title>
                    <source>Cadernos de Letras da UFF</source>
                    <issue>34</issue>
                    <fpage>287</fpage>
                    <lpage>324</lpage>
                    <year>2008</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B27">

                <mixed-citation>Morin, E. <italic>Ciência com consciência</italic>. 10. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Morin</surname>
                            <given-names>E</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>Ciência com consciência</source>
                    <edition>10. ed</edition>
                    <publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
                    <publisher-name>Bertrand Brasil</publisher-name>
                    <year>2010</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B28">

                <mixed-citation>Pikaza, X. <italic>Violência e diálogo entre as religiões</italic>: um projeto de paz. São Paulo: Paulinas, 2008.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Pikaza</surname>
                            <given-names>X.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Violência e diálogo entre as religiões</italic>: um projeto de paz</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Paulinas</publisher-name>
                    <year>2008</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B29">

                <mixed-citation>Pui-Lan, K. <italic>Globalização, gênero e reconstrução da paz</italic>: o futuro do diálogo interfé. São Paulo: Paulus, 2015.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Pui-Lan</surname>
                            <given-names>K</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Globalização, gênero e reconstrução da paz</italic>: o futuro do diálogo interfé</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Paulus</publisher-name>
                    <year>2015</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B30">

                <mixed-citation>Ribeiro, C. O. “Como será o amanhã”: um depoimento sobre o meu período de estudos de Pós-Graduação em Teologia na PUC-Rio. <italic>In</italic>: Tepedino, A. M. (org.). <italic>Memória, identidade e missão</italic>: Teologia da PUC-Rio – 45 anos. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, 2013. p. 233-244.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Ribeiro</surname>
                            <given-names>C. O</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <chapter-title>“Como será o amanhã”: um depoimento sobre o meu período de estudos de Pós-Graduação em Teologia na PUC-Rio</chapter-title>
                    <person-group person-group-type="compiler">
                        <name>
                            <surname>Tepedino</surname>
                            <given-names>A. M</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Memória, identidade e missão</italic>: Teologia da PUC-Rio – 45 anos</source>
                    <publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
                    <publisher-name>Editora PUC-Rio</publisher-name>
                    <year>2013</year>
                    <fpage>233</fpage>
                    <lpage>244</lpage>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B31">

                <mixed-citation>Ribeiro, C. O. Feminismo, subjetividades e pluralismo: crítica teológica feminista e os desafios da realidade social latino-americana. <italic>Pistis &amp; Praxis</italic>, v. 8, n. 1, p. 179-198, 2016b.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="journal">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Ribeiro</surname>
                            <given-names>C. O</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <article-title>Feminismo, subjetividades e pluralismo: crítica teológica feminista e os desafios da realidade social latino-americana</article-title>
                    <source>Pistis &amp; Praxis</source>
                    <volume>8</volume>
                    <issue>1</issue>
                    <fpage>179</fpage>
                    <lpage>198</lpage>
                    <year>2016b</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B32">

                <mixed-citation>Ribeiro, C. O. <italic>Libertação e gratuidade</italic>: reflexões teológicas sobre a espiritualidade. São Paulo: Paulinas, 2012.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Ribeiro</surname>
                            <given-names>C. O</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Libertação e gratuidade</italic>: reflexões teológicas sobre a espiritualidade</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Paulinas</publisher-name>
                    <year>2012</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B33">

                <mixed-citation>Ribeiro, C. O. <italic>O princípio pluralista</italic>. São Paulo: Loyola, 2020.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Ribeiro</surname>
                            <given-names>C. O</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>O princípio pluralista</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Loyola</publisher-name>
                    <year>2020</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B34">

                <mixed-citation>Ribeiro, C. O. <italic>Pluralismo e libertação</italic>. São Paulo: Paulinas, 2014.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Ribeiro</surname>
                            <given-names>C. O</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>Pluralismo e libertação</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Paulinas</publisher-name>
                    <year>2014</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B35">

                <mixed-citation>Ribeiro, C. O. Vozes de uma teologia feminista latino-americana. <italic>In</italic>: Ribeiro, C. O. (org.). <italic>Rasgando o verbo</italic>: teologia feminista em foco. São Paulo: Fonte Editorial, 2016a. p. 9-68.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Ribeiro</surname>
                            <given-names>C. O</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <chapter-title>Vozes de uma teologia feminista latino-americana</chapter-title>
                    <person-group person-group-type="compiler">
                        <name>
                            <surname>Ribeiro</surname>
                            <given-names>C. O</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Rasgando o verbo</italic>: teologia feminista em foco</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Fonte Editorial</publisher-name>
                    <year>2016a</year>
                    <fpage>9</fpage>
                    <lpage>68</lpage>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B36">

                <mixed-citation>Ribeiro, C. O.; Souza, D. S. <italic>Teologia das religiões em foco</italic>: um guia para visionários. São Paulo: Paulinas, 2012.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Ribeiro</surname>
                            <given-names>C. O</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Souza</surname>
                            <given-names>D. S</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Teologia das religiões em foco</italic>: um guia para visionários</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Paulinas</publisher-name>
                    <year>2012</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B37">

                <mixed-citation>Santos, B. S. <italic>Pela mão de Alice</italic>: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 2010.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Santos</surname>
                            <given-names>B. S</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Pela mão de Alice</italic>: o social e o político na pós-modernidade</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Cortez</publisher-name>
                    <year>2010</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B38">

                <mixed-citation>Tamez, E. <italic>As mulheres no movimento de Jesus, o Cristo</italic>. São Leopoldo: CLAI; Sinodal, 2004.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Tamez</surname>
                            <given-names>E.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>As mulheres no movimento de Jesus, o Cristo</source>
                    <publisher-loc>São Leopoldo</publisher-loc>
                    <publisher-name>CLAI; Sinodal</publisher-name>
                    <year>2004</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B39">

                <mixed-citation>Teixeira, F. <italic>Cristianismo e diálogo inter-religioso</italic>. São Paulo: Fonte Editorial, 2014.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Teixeira</surname>
                            <given-names>F.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>Cristianismo e diálogo inter-religioso</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Fonte Editorial</publisher-name>
                    <year>2014</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B40">

                <mixed-citation>Teixeira, F. <italic>Diálogo de pássaros</italic>: nos caminhos do diálogo inter-religioso. São Paulo: Paulinas, 1993.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Teixeira</surname>
                            <given-names>F.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source><italic>Diálogo de pássaros</italic>: nos caminhos do diálogo inter-religioso</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Paulinas</publisher-name>
                    <year>1993</year>
                </element-citation>
            </ref>
            <ref id="B41">

                <mixed-citation>Tostes, A. Múltiplas pertenças religiosas. <italic>In</italic>: Ribeiro, C. O.; Aragão, G.; Panasiewicz, R. (org.). <italic>Dicionário do pluralismo religioso</italic>. São Paulo: Recriar, 2020. p. 160.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>Tostes</surname>
                            <given-names>A.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <chapter-title>Múltiplas pertenças religiosas</chapter-title>
                    <person-group person-group-type="compiler">
                        <name>
                            <surname>Ribeiro</surname>
                            <given-names>C. O.</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Aragão</surname>
                            <given-names>G.</given-names>
                        </name>
                        <name>
                            <surname>Panasiewicz</surname>
                            <given-names>R.</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <source>Dicionário do pluralismo religioso</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>Recriar</publisher-name>
                    <year>2020</year>
                    <fpage>160</fpage>
                    <lpage>160</lpage>
                </element-citation>
            </ref>
        </ref-list>
    </back>
</article>
