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                <journal-title>Revista Oculum Ensaios</journal-title>
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                <publisher-name>Pontifícia Universidade Católica de Campinas</publisher-name>
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            <article-id pub-id-type="doi">10.24220/2318-0919v19e2022a4863</article-id>
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                <article-title>TEMPLOS DO TRABALHO: O CANTEIRO DE OBRAS NO MÉXICO DO SÉCULO XVI</article-title>
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                    <trans-title>LABOR TEMPLES: THE CONSTRUCTION SITE IN 16TH-CENTURY MEXICO</trans-title>
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                        <surname>THIESEN</surname>
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                <institution content-type="orgname">Universidade Federal de Goiás</institution>
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                <email>joserpt@ufg.br</email>
                <institution content-type="original">Universidade Federal de Goiás | Unidade Acadêmica Especial de Ciência Sociais Aplicadas | Curso de Arquitetura e Urbanismo | Av. Bom Pastor, s/n., Bairro Areião, 76600-000, Goiás, GO, Brasil l | E-mail: joserpt@ufg.br</institution>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (<italic>Open Access</italic>) sob a licença <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
                </license>
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            <abstract>
                <title>RESUMO</title>
                <p>As altas culturas pré-colombianas eram sociedades capazes de edificar grandes obras no espaço urbano, e isso resultava de um modo determinado de organizar e se relacionar com o trabalho. A colonização impõe muito mais do que outra forma para a arquitetura e o urbanismo, a ser absorvida pelos trabalhadores indígenas: ela impõe outro tipo de relação dos trabalhadores da construção com o trabalho, seus processos e produtos. À luz de categorias da economia política e com centralidade no trabalho, serão analisados aspectos da produção da arquitetura mexicana no século XVI (pré-colonial e colonial), buscando revelar os efeitos da transformação do canteiro de obras em uma manufatura de tipo europeia.</p>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>ABSTRACT</title>
                <p>High pre-Columbian cultures were societies capable of building great works in the urban space, which resulted from a specific way of organizing and relating to labor. Colonization imposes much more than changes in architecture and urbanism to be absorbed by indigenous workers: it forces a different type of relationship between construction workers and labor, its processes and products. Illuminated by categories of the political economy and centering the analysis of labor, we will examine aspects of the 16<sup>th</sup>-Century production of Mexican architecture (pre-colonial and colonial) in order to reveal the effects of the transformation of the construction site into European manufacture.</p>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>PALAVRAS-CHAVE</title>
                <kwd>América Latina</kwd>
                <kwd>Colonização</kwd>
                <kwd>Estudos de produção</kwd>
                <kwd>Trabalho</kwd>
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                <title>KEYWORDS</title>
                <kwd>Latin America</kwd>
                <kwd>Colonization</kwd>
                <kwd>Production studies</kwd>
                <kwd>Labor</kwd>
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    <body>
        <sec sec-type="intro">
            <title>Introdução</title>
            <p>A TEORIA E A HISTORIOGRAFIA da arquitetura e da cidade no Brasil e na América Latina são repletas de lacunas que vagarosamente vão sendo preenchidas. Este artigo é parte de um esforço ainda embrionário, porém coletivo, de investigar a produção da arquitetura latino-americana de um ponto de vista bastante determinado: o dos trabalhadores da construção, mais especificamente aqueles que atuam no canteiro de obras. Importante destacar que esse esforço impõe um desafio historiográfico, mas sobretudo teórico, pois exige a construção, aplicação e aperfeiçoamento de uma abordagem não convencional. Essa abordagem propõe um método no qual as análises e sínteses devem conferir centralidade ao trabalho na produção da arquitetura.</p>
            <p>Quem inaugura essa abordagem, não somente no Brasil como, ao que tudo indica, no mundo, é o autor brasileiro Sérgio Ferro. Sua produção teórica nesse sentido se inicia no final dos anos 1960 e hoje encontra ressonância em um amplo projeto de pesquisa anglo-brasileiro intitulado <italic>Translating Ferro/Transforming Knowledges</italic> (TF/TK). O TF/TK, cujo início é posterior ao primeiro esboço deste artigo, visa não somente a tradução das obras de Sérgio Ferro para a língua inglesa como também a estruturação de um campo chamado de “Estudos de Produção”, no qual pretende-se articular e aprofundar a produção teórica, histórica e experimental de pesquisadores de diversos países identificados com a abordagem aqui utilizada. Embora não haja vínculo direto deste artigo em específico com o TF/TK por questões de temporalidade, a aproximação é evidente.</p>
            <p>Um elemento chave para investigar a história da arquitetura vista do canteiro é a gênese (que pode ser generalizada, mas que em verdade são várias gêneses) daquilo que Sérgio Ferro chama de “desenho separado”. Trata-se do momento no qual o trabalho intelectual, condensado no desenho (ou projeto) de arquitetura, deixa o canteiro de obras, transformando-o em um lugar de exercício exclusivo do trabalho manual. O trabalho necessário à produção da arquitetura passa a ser a reunião geralmente forçada de dois fragmentos conflitantes entre si: o desenho e o canteiro. Ele deixa de ser, assim, a expressão de uma síntese orgânica entre concepção e produção do ambiente construído. O artigo que se segue buscará investigar um desses casos, quando um processo social intenso como a colonização do México deixa suas marcas no canteiro de obras e, portanto, na produção da arquitetura.</p>
            <p>Um esboço geral bastante satisfatório da história europeia da arquitetura vista do canteiro foi desenvolvido pelo próprio Sérgio Ferro. A abordagem e os elementos metodológicos principais dos quais este artigo se vale vêm daí. Importante destacar que isso implica numa forma de entender a posição da arquitetura enquanto objeto de estudo:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>A arquitetura faz parte de um conjunto maior, o da construção em toda sua extensão, que por sua vez está incluído num maior ainda, o da economia política. Acreditamos que é a partir da análise da construção, toda ela, dentro da economia política e, em seguida, da arquitetura dentro da construção, que poderemos compreender corretamente esta nossa atividade: desenhar, projetar</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B03">FERRO, 2010</xref>, p. 13).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>A América Latina é, no entanto, um campo ainda quase inexplorado nesse sentido, e talvez mais complexo. A complexidade da América Latina tem a ver com a heterogeneidade dos seus processos coloniais e o hibridismo das relações de trabalho experimentadas. Cientes de todo o plural esforço contemporâneo na ressignificação dos estudos sobre a América Latina, optou-se por uma fundamentação teórica eminentemente marxista, por entender que se trata da principal referência no desenvolvimento da economia política. Mais que isso, o marxismo percorreu os séculos XX e XXI aprofundando o entendimento do trabalho e sua centralidade para a práxis humana, sobretudo por meio da produção teórica de autores como György Lukács e seu discípulo István Mészáros. Coutinho, na obra de <xref ref-type="bibr" rid="B01">Antunes e Rêgo (1996, p. 21)</xref> afirma “Lukács [...] percebe no trabalho – fonte primária da articulação entre causalidade e teleologia – a célula do ser social, retomando e generalizando o movimento metodológico dialético que levou Marx a ver na mercadoria a célula do capital”.</p>
            <p>Esse aprofundamento valorizou intensamente temas como o estranhamento do trabalho, considerando aspectos subjetivos da relação trabalhador-trabalho; temas esses que atuam no pano de fundo do texto que segue. Trata-se aqui, portanto, de uma análise dentre outras possíveis e até mesmo já existentes − como a de <xref ref-type="bibr" rid="B06">Kubler (1948)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B08">Manrique (1968)</xref> −, sobre este mesmo objeto: a arquitetura colonial mexicana.</p>
            <p>Para tanto, o artigo se iniciará abordando a forma pré-colonial de organização do trabalho, avançando para os principais conflitos na relação trabalhador-trabalho explicitados pelo processo colonial. Em seguida, a resolução desse conflito na consolidação da manufatura de tipo europeia, com suas contradições e resistências, será analisada. Serão abordados, ainda que brevemente, algumas nuances específicas da manufatura no contexto mexicano no primeiro século da colonização, para então finalmente concluir considerando que os colonizadores atuaram no sentido não somente de conferir ao trabalhador indígena mexicano um patamar mínimo de conhecimentos necessários para a execução de obras de arquitetura com feições espanholas, mas também um máximo, limitado pelas condições de viabilização da forma manufatureira de produzir arquitetura.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>A CIDADE ASTECA: CONCENTRAÇÃO DO TRABALHO SOCIAL</title>
            <p>Tenochtitlán, atual Cidade do México, era o mais poderoso <italic>altépetl</italic><xref ref-type="fn" rid="fn01">1</xref> da meso-américa pré-colonial. Provavelmente era também a maior cidade do mundo à época, podendo ter tido até 300 mil habitantes. Além dela, os <italic>altépetl</italic> de Teotihuacan, Texcoco, Xochimilco, Tlacopan entre outros, também ocupavam o Vale do México, todos bastante populosos e urbanizados. Sabe-se que a formação das cidades, na história das sociedades humanas, depende da geração de um excedente econômico capaz de lastrear o desenvolvimento de atividades não diretamente vinculadas à subsistência. Um certo desenvolvimento das forças produtivas, portanto, é exigido.</p>
            <p>Os relatos de Don Fernando de Alva Ixtlilxochitl, embora escritos cerca de dois séculos após os fatos, falam na mobilização de 200 mil trabalhadores diariamente para a construção dos palácios de Nezahualcoyotl em Texcoco no século XV (<xref ref-type="bibr" rid="B05">IXTLILXOCHITL, 1891</xref>). Ainda que esse dado não seja confiável, há outras evidências de que as obras públicas astecas no período pré-colonial eram conduzidas por enormes quantidades de trabalhadores (<xref ref-type="bibr" rid="B16">RABIELA, 1984</xref>).</p>
            <p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B15">Rabiela (1979)</xref>, tentar comparar o desenvolvimento das forças produtivas mesoamericano (pré-conquista) com o europeu no mesmo período levando em conta apenas a tecnologia em sentido instrumental seria equivocado. Rabiela defende que se considere o que ela chama de “tecnologia social do trabalho”. A capacidade produtiva de uma sociedade pode depender das tecnologias desenvolvidas para poupar trabalho, mas, na ausência delas, pode depender também da sua capacidade de mobilizar e organizar o trabalho coletivo.</p>
            <p>A sociedade asteca, que não utilizava, por exemplo, a roda ou animais de tração, tinha por outro lado um sofisticado sistema de recrutamento de mão de obra para as obras públicas, no qual a divisão social do trabalho aparecia de um modo totalmente novo para a experiência europeia.</p>
            <p>Esse sistema estava baseado na arregimentação de trabalhadores por tempo determinado em sistema de rodízio, e não na especialização de grupos ou instituições de tempo integral, embora os especialistas também existissem. Tinha como elemento central o cuatequil (<italic>coatequitl</italic> ou <italic>cohuatequitl</italic>, na língua nauátle), cujo caráter era tributário. Em linhas gerais pode-se falar em um sistema supra familiar por um lado e, por outro, pouco centralizado, estando, portanto, a meio caminho entre a dispersão e a centralização. Dependia fortemente do poder de convocação do <italic>Tlatoani</italic>, principal liderança de cada <italic>altépetl</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B15">RABIELA, 1979</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B16">1984</xref>).</p>
            <p>Seu caráter supra familiar é evidenciado pela formação de quadrilhas mistas (com artesãos e não artesãos − lavradores, por exemplo) de 20 trabalhadores. Contudo, nas regiões mais urbanizadas predominava a formação de grupos de 100 trabalhadores recrutados nos bairros num sistema de rodízio entre as diversas funções ou tarefas (<italic>tequitl</italic>) a serem cumpridas. Por vezes, em obras excepcionais, esse recrutamento extrapolava a cidade, exigindo o tributo em trabalho vivo (cuatequil) de outros <italic>altépetl</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B15">RABIELA, 1979</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B16">1984</xref>).</p>
            <p>Já a pouca centralização pode ser percebida na autonomia dos grupos para organizar o trabalho (divisão de tarefas <italic>etc</italic>.). Tanto as quadrilhas (de 20 ou 100 trabalhadores) quanto os <italic>altépetl</italic> recrutados gozavam de liberdade para exercer a seu modo o trabalho requisitado (<xref ref-type="bibr" rid="B15">RABIELA, 1979</xref>).</p>
            <p>Sobretudo nas grandes obras, havia uma diplomacia envolvida: a remuneração pelo trabalho (o <italic>altépetl</italic> requerente entregava outras mercadorias em troca), embora essa remuneração variasse muito e pudesse incluir a isenção dos tributos corriqueiros. As tarefas atribuídas a cada <italic>altépetl</italic> eram igualmente variáveis: iam desde a entrega de cargas de um determinado material (madeira, cal, pedras, terra), o fornecimento de alimentação a trabalhadores de outras tarefas, até a atribuição de uma parte da obra (um serviço específico ou uma fração da edificação, com todas as suas etapas) (<xref ref-type="bibr" rid="B16">RABIELA, 1984</xref>).</p>
            <p>Por outro lado, a cobrança de tributo em trabalhos nas obras públicas de grande porte era também indutora de guerras, nos casos em que um <italic>altépetl</italic> não aceitasse a cobrança. Campanhas militares em períodos de grandes obras eram comuns (<xref ref-type="bibr" rid="B16">RABIELA, 1984</xref>).</p>
            <p>Esse modelo foi responsável pelas grandes obras públicas no Vale do México e sobreviveu em grau considerável à colonização, tendo sido incorporado parcialmente pelos colonizadores para a extração da força de trabalho indígena, sobretudo após 1549, quando o sistema de <italic>encomiendas</italic> é substituído pelo de <italic>repartimientos</italic>, sendo esse último muito ligado à exploração do cuatequil (<xref ref-type="bibr" rid="B17">RABIELA, 1987</xref>).</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>O CANTEIRO COLONIAL</title>
            <p>Em 1522, após um período de hesitação, os espanhóis decidem (re)construir a capital da Nova Espanha no mesmo local da capital asteca, e essa decisão dá início à mobilização de aproximadamente 20 mil trabalhadores para um enorme canteiro de obras urbano. O missionário franciscano espanhol Motolinia faz uma descrição, por volta de 1536, desse canteiro de obras:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>[...] era tanta gente que andava nas obras que somente algumas ruas e calçadas podiam ser percorridas, mesmo sendo bem largas; e nas obras, uns eram atingidos por vigas, outros caíam de lugares altos, sobre outros caíam os edifícios que eram demolidos aqui para serem refeitos ali, especialmente os templos principais do diabo; ali morreram muitos índios e demorou muitos anos para arrancar tudo, deles saiu uma infinidade de pedras. E o costume dessa terra não é o melhor do mundo, porque os índios fazem as obras, e por conta própria buscam os materiais e pagam pedreiros e carpinteiros, e se não trazem comida, jejuam. Todos os materiais carregam nas costas; arrastam grandes pedras e vigas com cordas; e na falta de engenho, mas na abundância de gente, aonde cem homens seriam requeridos para trazer uma pedra ou viga, o fazem quatrocentos. E têm costume de irem cantando e gritando, e esses cantos e vozes não param noite e dia, com o grande fervor de construir a cidade nos primeiros anos</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B14">MOTOLINIA, 2014</xref>, p. 22, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn02">2</xref>.</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>À frente da mobilização mencionada na citação estavam lideranças indígenas aliadas aos espanhóis, sendo uma delas Ixtlilxochitl II, o <italic>Tlatoani</italic> − liderança máxima do <italic>altépetl</italic> −, de Texcoco. Sem a intermediação de lideranças indígenas, dificilmente as obras mexicanas coloniais teriam sido possíveis.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>A organização das primeiras equipes de construção colonial [...] seguiu de perto o padrão de organização laboral pré-conquista. Os colonizadores tiveram que utilizar grandes quantidades de mão de obra indígena não qualificada e, em sua mobilização, foram forçados a reviver e implementar certos modos de autoridade civil e política de antes da conquista. [...]. Mas, para utilizar o trabalho indígena, os colonizadores tinham que confiar na colaboração dos homens que comandavam a sociedade indígena. Sempre que o trabalho indígena foi adaptado aos usos europeus em quantidades em que a disciplina social era essencial para o uso eficiente do trabalho, pode-se presumir que chefes e lideranças indígenas eram mantidos no poder. Pressões políticas, econômicas, militares ou morais garantiram a colaboração dos chefes. Alguns indígenas participaram da empreitada colonial para manter seus poderes anteriores; outros foram comprados e houve ainda aqueles que foram coagidos. Alguns foram reeducados e, talvez, moralmente persuadidos ao serviço cristão</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>, p. 145, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn03">3</xref>.</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Como visto, os grandes canteiros de obras astecas reuniam enormes quantidades de trabalhadores com pouco recurso a equipamentos poupadores de trabalho, aquilo que Motolinia chamou de “falta de engenho” e “abundância de gente”. No tópico anterior já foi feita a ressalva de que o “déficit” tecnológico em sentido instrumental pode ser compensado por aquilo que Rabiela chamou de “tecnologia social do trabalho”. Nesse sentido, se a sociedade asteca apresentava um déficit instrumental, é seguro afirmar que os colonizadores estavam em atraso com relação aos colonizados no que toca à mobilização e organização do trabalho coletivo. Algumas características da relação da sociedade asteca com o trabalho são importantes para compreender essa diferença.</p>
            <p>A primeira delas é a relação trabalho-ritual. George Kubler, em sua extensa obra sobre a arquitetura mexicana no século XVI, mostra-se muito atento a essa diferença:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>[...] os indígenas não estavam interessados apenas em aprender novas técnicas. Esse interesse pressupunha algo mais. Pressupunha um interesse vital no próprio trabalho produtivo. Não estavam preocupados apenas em ganhar a vida com os métodos e práticas industriais europeias. [...] O exercício de qualquer ofício era conduzido por ritos e invocações religiosas. [...] Em outras palavras, os trabalhadores produziam seus produtos para fins específicos e consagrados, e não para os consumidores não identificados de um mercado impessoal. Na sociedade indígena pré-conquista, praticamente todo o trabalho era pontuado por ocasiões ritualísticas e festivas; e o próprio trabalho era realizado cerimonialmente. Na vida colonial, no entanto, os espanhóis parecem não ter compreendido que, para os indígenas, não valia a pena fazer nenhum trabalho que não estivesse atravessado pelo simbolismo cerimonial. Na vida cristã, trabalho e adoração são conceitos distintos. Sob a direção cristã, esperava-se que o indígena trabalhasse sem floreios por seis dias, divorciado de todas as formas de comportamento ritual. Suas devoções diárias não tinham nada a ver com seu trabalho, e o próprio trabalho, por ser um exercício de piedade, foi degradado em labuta física sem compensação espiritual</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>, p. 156, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn04">4</xref>.</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Percebe-se, assim, um vínculo orgânico – “vital”, nas palavras de Kubler –, embora mediado pela religiosidade, do trabalhador com o trabalho. Na sociedade europeia, esse vínculo há muito havia sido rompido, chegando ao ponto de o trabalho se converter em “exercício de piedade”. Se ritual e trabalho andavam juntos na sociedade asteca, então pode-se dizer que o trabalhador ia ao trabalho como se fosse ao culto religioso; ou seja, “voluntariamente” (entre aspas, porque é evidente que se trata de um voluntariado submetido à persuasão e ao meio social). De todo modo, o trabalho exercia sobre os trabalhadores um poder de atração. As colocações de Kubler, portanto, sugerem uma visão de trabalho produtivo na sociedade asteca que se aproxima da ideia do “trabalho atrativo” discutido por Marx em seus <italic>Grundrisse</italic>:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>[...] o trabalho, em suas formas históricas como trabalho escravo, servil e assalariado, sempre aparece como repulsivo, sempre como trabalho forçado externo, perante o qual o não trabalho aparece como ‘liberdade’ e ‘felicidade’. Isso vale duplamente: para esse trabalho contraditório e, em conexão com isso, para o trabalho que ainda não criou para si as condições, subjetivas e objetivas (ou, ainda, para o que as perdeu, em comparação com a condição pastoril etc.), para que o trabalho seja trabalho atrativo, autorrealização do indivíduo, o que de modo algum significa que seja puro divertimento, pura diversão, como o concebe Fourier de maneira muito superficial e ingênua. Os trabalhos efetivamente livres, p. ex., compor, são justamente trabalhos ao mesmo tempo da maior seriedade e do mais intenso esforço</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B10">MARX, 2011</xref>, p. 509).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Cientes da delicadeza dessa questão – que se pretende aprofundar no tópico seguinte e nas considerações finais −, passa-se de imediato ao segundo aspecto decisivo da diferença na concepção do trabalho entre astecas e espanhóis. Esse segundo aspecto nada mais é do que um reforçamento do primeiro: uma vez que o trabalho não é percebido pela sociedade asteca como “repulsivo” ou “trabalho forçado externo”, o “não trabalho” tampouco se manifesta como expressão de “liberdade”. Exemplo claro disso é o envolvimento das lideranças no trabalho manual nos canteiros. Fragmentos da memória desse processo podem ser resgatados em livros de memórias de religiosos espanhóis dedicados à história dos povos indígenas da Nova Espanha, como o “Monarquia Indiana”, do padre Juan de Torquemada, publicado pela primeira vez em 1615:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Nezahualcoyotl mostrou-se nessa obra muito valoroso, e não menos esforçado Montezuma, porque eles foram os primeiros que puseram a mão nessa obra, animando com seu exemplo a todos os demais Senhores e <italic>Maceguales</italic> [equivalente a plebeus] nela envolvidos</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B18">TORQUEMADA, 1975</xref>, p. 219, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn05">5</xref>.</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Nezahualcoyotl foi o Tlatoani de Texcoco entre 1429 e 1472. Em diferentes situações, foi requisitado para liderar obras em Tenochtitlán (<xref ref-type="bibr" rid="B16">RABIELA, 1984</xref>), dando a impressão de ter sido uma espécie de arquiteto oficial asteca. A citação se refere a uma dessas ocasiões, por volta de 1450, quando o <italic>Huey Tlatoani</italic> − Tlatoani da “capital”, responsável por todo o conjunto dos <italic>altépetl</italic> −, era o primeiro Montezuma (também mencionado na citação).</p>
            <p>Da mesma forma, Don Fernando de Alva Ixtlilxochitl faz um relato no início do século XVII do momento em que seu pai (também Tlatoani de Texcoco, agora já em período colonial), lidera seus súditos numa empreitada construtiva a ser realizada na Cidade do México.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>[...] mandou chamar todos os cavaleiros e Senhores que sobraram com toda a gente ilustre, e reunidos ordenou que cada um pegasse seu <italic>huacatl</italic>, (que são como uns cestos, seja de madeira, seja de couro de animais), e levasse carregado de materiais para México para edificar os templos de São Francisco, Igreja Maior; e Ixtlilxochitl, como capitão, sendo o primeiro, carregou um grande <italic>huacatl</italic> de couro de tigre cheio de pedra, partiu para o México diante da gente ilustre que carregava pedra, cal e areia, e outros atrás puxando madeira, e os foi animando, e entre outras razões disse: que tivessem paciência e mostrassem ânimo [...] e que seus vassalos plebeus tomassem o exemplo, para que com mais ânimo os que quisessem segui-los fossem fazer esse serviço a Deus edificando sua Igreja [...]. O mesmo havia sido feito na reedificação de México</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B05">IXTLILXOCHITL, 1891</xref>, T. I, p. 435, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn06">6</xref>.</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Os dois aspectos mencionados bastam para salientar a diferença qualitativa na relação de nativos e colonizadores com o trabalho. É com base nessa diferença, e não ignorando ela, que a colonização vai esticar suas raízes sobre os canteiros de obras.</p>
            <p>Se é correto dizer que havia um déficit social entre os colonizadores, incapazes de recrutar mão de obra em grandes quantidades como faziam os astecas, é também verdade que esse déficit, ao invés de ser superado pelos colonizadores, será transferido para a colônia. Essa transferência, se verá adiante, soa ter sido um “mal necessário”, pois é evidente que seu aproveitamento teria beneficiado os colonizadores, caso pudesse ter sido mantido.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>TRABALHO ATRATIVO E TRABALHO FORÇADO</title>
            <p>O contato dos trabalhadores indígenas da construção com novas técnicas construtivas parece ter dado novo fôlego ao interesse indígena pelo trabalho produtivo. <xref ref-type="bibr" rid="B06">Kubler (1948)</xref> chama a atenção para o fato de que um grande volume − cerca de 75 estabelecimentos monásticos em um período de 25 anos, entre 1525 e 1550 −, da produção arquitetônica do século XVI no México foi consumada longe da capital, sob a liderança dos padres das ordens mendicantes. Esses padres eram bastante reticentes e geralmente totalmente avessos à permissão de que os indígenas sob sua influência tivessem contato com outros europeus e, por isso, dificilmente tiveram o auxílio de civis profissionais da construção na edificação dos templos que dirigiram.</p>
            <p>Houve muitos casos em que as obras foram dirigidas pelos próprios padres, cujo saber técnico era bastante limitado, e tendo para oferecer aos indígenas como referência apenas gravuras que retratavam a arquitetura europeia. Os resultados são diversos e vão desde obras com problemas técnicos ou com resultados formais muito curiosos − como os pilares do claustro do convento franciscano de Amecameca (<xref ref-type="bibr" rid="B08">MANRIQUE, 1968</xref>), até obras muito bem assentadas e consoantes com o gosto europeu.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Nos ofícios que eles conheciam antes, os índios se tornaram proficientes depois de verem os trabalhos que os espanhóis estavam fazendo. Os canteiros [trabalhadores da cantaria], que eram curiosos por escultura [...], esculpiram sem ferro, somente com pedras, coisas belíssimas; depois de terem picaretas, escodas [ferramenta de cantaria] e outros instrumentos de ferro, e de verem as obras que os nossos faziam, eles se aproveitaram de uma maneira excelente [...], e fizeram muitas igrejas e casas muito graciosas para os espanhóis. O que eles não conseguiram e hesitaram quando viram foi construir abóbadas, e quando fizeram a primeira (que foi a capela da antiga igreja de S. Francisco do México, pela mão de um pedreiro de Castela), eles se maravilharam muito ao ver tais abóbadas, e eles não podiam acreditar que, ao se retirarem os andaimes e cimbramentos, tudo não iria cair. E assim, quando tiveram que remover os andaimes, nenhum deles se atreveu a andar por baixo. Depois de ver que a abóbada permaneceu firme, eles perderam o medo. E logo depois os índios sozinhos fizeram duas capelas abobadadas, que ainda resistem no pátio da igreja principal de Tlaxcala, e depois fizeram e cobriram excelentes igrejas e casas abobadadas [...]. E, finalmente, isso pode ser entendido como regra geral, que quase todas as obras boas e curiosas que são feitas em todos os tipos de ofícios e artes nesta terra das Índias (pelo menos na Nova Espanha), são os índios que executam e trabalham, porque os mestres espanhóis de tais ofícios, maravilhados, não fazem mais do que dar o trabalho aos índios e dizer-lhes como querem que eles façam. E eles o tornam tão perfeito que não pode ser melhorado</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B12">MENDIETA, 1870</xref>, p. 409, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn07">7</xref>.</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Os relatos saudosistas do padre Jerônimo de Mendieta, do final do século XVI, ressaltam a atração indígena pelas técnicas construtivas europeias. É evidente, no entanto, que se trata de um processo extremamente contraditório. O outro polo da contradição, o início do desinteresse indígena pelo trabalho, aparecerá simultaneamente em múltiplas expressões.</p>
            <p>Ele se manifesta, por exemplo, no roubo de pedras da pavimentação de ruas e de muros de contenção, mas os boicotes contra próprio canteiro parecem ser exemplos mais evidentes, e ocorreram em abundância. <xref ref-type="bibr" rid="B06">Kubler (1948)</xref> relata mais de uma vez a ocorrência de uma prática, por parte dos trabalhadores indígenas, que consistia na substituição de cal por cinzas na mistura da argamassa, causando sérios problemas estruturais nos edifícios.</p>
            <p>O mesmo autor diz, no entanto, que o objetivo dos indígenas ao fazê-lo “não é claro” (<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>, p. 167). A formulação de uma hipótese para tanto deve levar em consideração um aspecto levantado por <xref ref-type="bibr" rid="B17">Rabiela (1987, p. 183)</xref>: “O tributo em cal foi um dos que mais provocou inquietação e mal-estar tanto entre os <italic>maceguales</italic> e suas autoridades como entre estas e as autoridades reais, devido ao seu grande peso pela abundância de obras públicas nessa época”. O próprio Kubler traz um dado interessante: “Entre 1555 e 1565, os indígenas trouxeram 2.015 cargas de cal para a Cidade do México, por ordem do vice-rei. Desse montante, 1.615 cargas foram usadas apenas nos reparos na casa real” (<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>, p. 167, tradução minha).</p>
            <p>As técnicas construtivas europeias, por mais interessantes e atrativas que pudessem ser, nem sempre faziam sentido para os trabalhadores indígenas, submetidos a exercer um trabalho vazio, sem domínio efetivo das técnicas e, sobretudo, sem exercício intelectual (seja ele técnico ou espiritual). Uma vez que a divisão do trabalho não consistia na especialização de pessoas ou instituições, é provável que os indígenas buscassem evitar utilizar o material que era, para eles próprios, o mais difícil de obter e transportar: a cal. Em 1538, a municipalidade da Cidade do México passou a exigir sempre um capataz especialmente designado para supervisionar a mistura da argamassa.</p>
            <p>Outra manifestação que denota esses conflitos são as greves e motins. Revoltas indígenas no canteiro foram registradas em Ixtacmaxtitlan em 1564 e em Ocuituco em 1534-1536 (<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>), sendo muito provável que muitas outras tenham acontecido.</p>
            <p>Esse processo todo é acompanhado de uma crise de conversão religiosa a respeito da qual se queixa o mesmo padre Mendieta em uma carta de 1562:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>[...] porque o fervor e o exercício na obra da salvação das almas parecem já ter cessado por completo: o espírito primitivo já morreu. Quanto aos nativos recém-convertidos, não existe mais o ingresso na Igreja de Deus para ouvir sua palavra, confessar sua fé e doutrina e receber seus santos sacramentos; [...] Bem, qual será a causa de tudo isso? De onde isso vem? Como começou? Há quanto tempo houve tanta revolução e mutação onde a vinha de Deus costumava ser tão fecunda e abundante, que [...] não havia outra coisa senão trabalhadores para a colheita?</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B11">MENDIETA, 1886</xref>, p. 4, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn08">8</xref>.</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Mediações para amenizar a situação foram experimentadas. Kubler, na mesma linha da relação trabalho-ritual mencionada anteriormente, fala na inserção de elementos de rituais católicos tanto nos processos como nos produtos do trabalho como compensação pelo esvaziamento do sentido ritual do trabalho em diversas situações. Entre elas, “[...] decorações suntuosas enchiam as igrejas para os muitos festivais importantes; [...] ofertas musicais de vozes e instrumentos; [...] peregrinações [...], procissões, danças públicas e performances teatrais de caráter religioso” (<xref ref-type="bibr" rid="B06">KULER, 1948</xref>, p. 49). Aqui, no entanto, interessa mais o exemplo que vem do próprio canteiro:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Dados seus antecedentes pré-conquista, o indígena naturalmente tentou resgatar seu trabalho por meio de performances cerimoniais. O processo de compensação foi registrado no <italic>Códice del Tecpan</italic>. O relato detalhado da construção dos edifícios públicos da comunidade [...], entre 1576 e 1581, revela o caráter religioso da empreitada comunitária indígena. Usando os símbolos e expressões do cristianismo, os índígenas buscaram a identificação de seu trabalho com o comportamento religioso. Muito mais do que em qualquer documento europeu da mesma natureza, a Trindade é invocada como padroeira da empreitada. O Deus cristão e Jesus Cristo são repetidamente trazidos à tona. A colocação da pedra angular foi abençoada pelo padre residente e o edifício acabado foi consagrado pelo arcebispo. Em todas as etapas da construção foram realizadas observâncias religiosas</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>, p. 157, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn09">9</xref>.</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>É possível perceber que interesse e indiferença pelo trabalho formam uma ambivalência dentro da alma do indígena mexicano trabalhador da construção no século XVI. O triunfo de um ou de outro depende muitas vezes das condições impostas em cada canteiro.</p>
            <p>O Tecpan de Tlatelolco, mencionado na citação anterior, é sem dúvida um exemplo primoroso de todo esse conflito. Trata-se uma obra excepcional, na qual o controle do processo esteve nas mãos dos nativos, ainda que tenha sido executada já em contexto colonial. Soa ter sido um manifesto indígena em forma de arquitetura e, bem ao estilo asteca, foi um manifesto muito mais em processo do que em produto. A feição final do edifício não é tão revolucionária quanto seu canteiro, espaço de exercício da liberdade no trabalho.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Em todos os assuntos relativos à participação indígena nas operações de construção, é interessante regressar ao inestimável <italic>Códice del Tecpan de Tlatelolco</italic>. Lá vemos que, quando os indígenas estavam trabalhando por conta própria, eles trabalharam rápida e eficientemente, durante a pior praga da história do México e durante o maior esgotamento experimentado pela raça indígena, para produzir os edifícios que evitaram sua humilhação pelos espanhóis</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>, p. 185, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref>.</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
        </sec>
        <sec>
            <title>A COESÃO COMO ARMA DA COAÇÃO</title>
            <p>Na medida em que a dominação sobre o trabalho indígena por parte dos colonizadores se consolidava, os resquícios da forma pré-colonial de organizar o trabalho no canteiro de obras, de sobrevida triunfante da cultura asteca, passavam a ser armas contra eles: armas da superexploração.</p>
            <p>Um aspecto que revela claramente esse movimento pode ser observado com auxílio de uma categoria da economia política: a composição orgânica do capital (divisão do capital constante pelo capital variável) nos canteiros de obra. Ela se expressa na fácil substituição de ferramentas (por mais simples que fossem) por imensas quantidades de trabalho vivo. As novas técnicas construtivas eram ensinadas e exigidas dos trabalhadores indígenas, mas as ferramentas correspondentes geralmente não eram disponibilizadas.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>A menos que o próprio trabalhador indígena pudesse fornecê-los, era improvável que seu empregador incorresse no custo do aluguel e no risco de perda. Portanto, é provável que os indígenas tenham fabricado mais ferramentas de estilo europeu do que as que foram fornecidas pelos seus empregadores. Se a mão de obra era gratuita, ou quase, e as ferramentas eram caras, não seria provável que o empregador economizasse mão de obra e esbanjasse dinheiro em ferramentas.</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>, p. 159, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref>.</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Muitos exemplos reforçam essa tendência ao emprego abundante de força de trabalho em obras que poderiam ser realizadas por poucos trabalhadores bem equipados. Nas obras de construção do Palácio de Cortés, na Cidade do México (<italic>Casas nuevas</italic>), que duraram 27 anos, “[...] quatrocentos indígenas trabalharam por dois dias para trazer a pedra apenas para a escada. Cerca de 320 indígenas ficaram ocupados por quatro dias apenas para trazer para a cidade as oito bases de pedra para as colunas da galeria” (<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>, p. 148). Em 1553, nessa mesma obra, equipes de cem homens tinham como tarefa transpor uma montanha puxando um único bloco de pedra trazido de Oaxtepec (<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>, p. 161). Já em outra obra:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Em 1556, o arcebispo Montúfar reclamou que os indígenas foram trazidos pelos padres para trabalhar nas grandes igrejas monásticas “em bandos de 500, 600 ou 1.000, de uma distância de quatro, seis ou doze léguas, sem... nenhum salário ou mesmo uma crosta de pão.” [...]. Em Yanhuitlan, na década de 1570, os índios designados para o cuatequil da igreja eram seis mil. Eles foram divididos em dez turnos de seiscentos cada um, que eram encarregados de transportar pedra, cal e água para a fábrica. Esses números não incluíam os artesãos que trabalhavam a pedra, misturavam a argamassa e ajudavam os artesãos europeus que dirigiam a empreitada. Os assistentes dos europeus, no entanto, foram selecionados entre os trabalhadores mais competentes da massa de trabalhadores indiferenciados e não qualificados</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>, p. 149, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref>.</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Ser mais ou menos qualificado, contudo, não trazia efeitos positivos para o trabalhador indígena em contexto colonial, já que a mistura de artesãos e trabalhadores não especializados era comum no sistema de cuatequil pré-colonial. Os espanhóis se aproveitaram também disso para alimentar a superexploração. Nas obras da catedral, “[...] um oficial trabalhando no quadro do <italic>tequio</italic> recebe um <italic>tomin</italic> por dia em vez de dois” (<xref ref-type="bibr" rid="B04">GRUZINSKI, 2002</xref>, p. 333).</p>
            <p>A baixa composição orgânica do capital, aliás, não era exclusividade das obras sem arquitetos ou especialistas. Segundo Serge Gruzinski (2002, p. 331), “[...] os melhores artistas europeus estabelecidos na Nova Espanha estavam reunidos nas obras da catedral”. Ainda assim, em 1592, Mendieta reclama: “Se cem ou duzentos índios bastariam para trabalhar nas obras da Igreja Maior do México, porque são levados para lá milhares deles com tanta violência e tristeza [...]?” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">MENDIETA, 1892</xref>, T. II, p. 121, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref>.</p>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
            <p>A produção de uma arquitetura europeia em território americano no contexto colonial exigiu, independente da região do continente (se no México ou no Brasil, por exemplo), a produção de mão de obra (formação de trabalhadores) da construção capazes de executar as obras. Por mais que em países como o Brasil e em colônias africanas os colonizadores tenham experimentado e desenvolvido uma espécie de pré-fabricação colonial, deslocando em navios elementos construtivos manufaturados para serem apenas montados nas colônias, esse tipo de prática jamais poderia suprir a demanda por edifícios que a diversidade de situações coloniais exigia.</p>
            <p>Daí que as diferentes situações pré-coloniais sejam decisivas para determinar a capacidade produtiva de cada colônia em separado. Não é à toa que a maior igreja portuguesa fora de Portugal, por exemplo, esteja situada na antiga colônia de Goa, na Índia – que assim como o México também carregava atrás de si uma ampla experiência urbana – , e não no Brasil, a principal colônia.</p>
            <p>O caso mexicano revela que a demanda por produção de mão de obra da construção para a produção de arquitetura colonial exigia um processo de aculturação, formação de mão de obra (seja na prática ou em escolas próprias) e conversão religiosa. Trata-se de uma transferência de conhecimentos mínimos relativos à construção. Esse mínimo, no caso mexicano, era mais fácil de se obter do que na maioria das outras colônias.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>O sucesso inicial de qualquer campanha de construção colonial depende em parte do estado de conhecimento em construção entre os povos nativos. [...] caso faltassem técnicas mais avançadas aos indígenas [mexicanos], estes estavam pelo menos equipados com conhecimentos básicos [...]. O estado dos conhecimentos técnicos variava muito de tribo para tribo. No México ocidental, por exemplo, as aldeias esparsas possuíam pouca tradição de construção monumental [....]. No sul do México, por outro lado, entre os Zapotecas e Mixtecas, os dominicanos descobriram uma oferta abundante e dócil de mão de obra de construção não qualificada, bem habituados a empreendimentos monumentais.</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>, p. 151, tradução minha)<xref ref-type="fn" rid="fn14">14</xref>.</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>É menos autoevidente, no entanto, que os colonizadores precisaram estabelecer igualmente um máximo para a transferência desses conhecimentos – e a distância entre o mínimo e o máximo pode ser bem menor do que se imagina.</p>
            <p>O estabelecimento desse máximo vai acabar bloqueando o desenvolvimento de potencialidades típicas da herança asteca, como a alta produtividade e a autonomia − autonomia essa que poderia redundar até mesmo na dispensa de transferência de mestres de obras da metrópole para a colônia. Os colonizadores não hesitaram em sacrificar essas potencialidades para garantir a subordinação e a dominação do trabalho.</p>
            <p>Um exemplo: uma série de mecanismos ligados à organização gremial (corporativa) começa a operar no último quartel do século XVI, no México, no sentido de restringir aos indígenas as possibilidades de ingresso e ascensão, sendo vetada a eles inclusive a possibilidade de atingir o posto de mestre (<xref ref-type="bibr" rid="B06">KUBLER, 1948</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B04">GRUZINSKI, 2002</xref>). O que estava vetado, na realidade, era a ascensão ao posto onde se consolidava, para a tradição europeia, o monopólio da direção das obras. Os trabalhadores indígenas se viram, assim, presos entre duas políticas só aparentemente conflitantes: deviam se qualificar para que permanecessem subordinados.</p>
            <p>Os indígenas deveriam ser mantidos como trabalhadores parciais, nunca capazes de dominar a totalização do processo produtivo. É nesse mesmo trilho que corre o sacrifício da alta produtividade do trabalho que poderia ter sido obtida a partir do incentivo contínuo ao interesse indígena pelas técnicas europeias. A alta produtividade certamente interessava aos espanhóis, pois poderia propiciar um alto grau de exploração do trabalho. Contudo, a exploração, ao que parece, interessava menos do que a dominação. A alta produtividade dependia de um grau de liberdade no trabalho inaceitável à dominação.</p>
            <p>É mérito de Sérgio Ferro, fazendo clara referência à André Gorz, a identificação do conflito entre técnicas de produção e técnicas de dominação nos canteiros de obras:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Os obstáculos ao aprofundamento do saber para a produção só podem ser interpretados como sintomas da emergência temida e sempre eminente do conflito entre a imagem da técnica de produção e as correntes polimórficas da técnica de dominação</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B02">FERRO, 2006</xref>, p. 126).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Essa citação é importante porque, além de demonstrar claramente a relação de conflito entre técnica de produção e técnica de dominação, relaciona esse conflito diretamente ao “aprofundamento do saber para a produção”. É esse aprofundamento que precisa ser evitado quando o objetivo é a dominação, como ocorreu no caso mexicano. Esse processo está intimamente ligado à implementação do modo manufatureiro de produzir a arquitetura.</p>
            <p>As manufaturas europeias são vistas por Marx como responsáveis justamente pelo esvaziamento do aspecto intelectual do trabalho: “É um produto da divisão manufatureira do trabalho opor-lhes [aos trabalhadores] as forças intelectuais do processo material de produção como propriedade alheia e poder que os domina” (<xref ref-type="bibr" rid="B09">MARX, 1983</xref>, p. 283).</p>
            <p>Para que uma produção manufatureira se torne viável, é necessário que o saber esteja concentrado na direção do processo. O saber e a noção de totalização do produto jamais podem ser democratizados entre os produtores, sob pena de comprometer a organização manufatureira.</p>
            <p>É inegável que as capacidades construtivas dos trabalhadores indígenas foram incrementadas pelo contato com as técnicas europeias. É igualmente inegável que as técnicas europeias foram enriquecidas pelo contato com a experiência indígena – o que se revela no emprego, em grande escala, de materiais como o tezontle e o tecali na arquitetura colonial mexicana – , mas esse desenvolvimento das capacidades produtivas, infelizmente, não redundou em desenvolvimento da personalidade humana, para utilizar uma expressão de Görgy Lukács.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>[...] o desenvolvimento das forças produtivas é necessariamente ao mesmo tempo o desenvolvimento das capacidades humanas. Contudo – e nesse ponto o problema do estranhamento vem concretamente à luz do dia –, o desenvolvimento das capacidades humanas não acarreta necessariamente um desenvolvimento da personalidade humana</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B07">LUKÁCS, 2013</xref>, p. 581).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>O caso mexicano é imprescindível para avançar na compreensão do papel do estranhamento do trabalho na produção da arquitetura. Ele revela aspectos que podem, inclusive, fazer com que a análise feita aqui, que destacou elementos da economia política, possa avançar para outros campos mais amplos da reflexão sobre a arquitetura, mantendo a centralidade no trabalho e no canteiro de obras.</p>
        </sec>
    </body>
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            <title>COMO CITAR ESTE ARTIGO/<italic>HOW TO CITE THIS ARTICLE</italic></title>
            <fn fn-type="other">
                <p>THIESEN, J. R. P. Templos do trabalho: o canteiro de obras no México do Século XVI. <italic>Oculum Ensaios</italic>, v. 19, e224863, 2022. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.24220/2318-0919v19e2022a4863">https://doi.org/10.24220/2318-0919v19e2022a4863</ext-link></p>
            </fn>
        </fn-group>
        <fn-group>
            <title>NOTAS</title>
            <fn fn-type="other" id="fn01">
                <label>1</label>
                <p><italic>Altépetl</italic> é a unidade étnico-territorial básica da organização social asteca. Este termo passou a ser empregado recentemente (a partir da década de 1990) substituindo os termos europeus: povoado, señorío, pueblo, cidade, <italic>etc</italic>. Deste modo, empregamos aqui o termo <italic>altépetl</italic> mesmo que ele não apareça na bibliografia de base desse artigo, que é quase toda mais antiga.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn02">
                <label>2</label>
                <p>No original: “[...] <italic>era tanta la gente que andaba en las obras, que apenas podía hombre romper por algunas calles y calzadas, aunque son muy anchas. Y en las obras, a unos tomaban las vigas, otros caían de alto, a otros tomaban debajo los edificios que deshacían en una parte para hacer en otra, en especial cuando deshicieron los templos principales del demonio; allí murieron muchos indios y tardaron muchos años hasta los arrancar de cepa, de los cuales salió infinidad de piedra. Es la costumbre de esta tierra no la mejor del mundo, porque los indios hacen las obras, y a su costa buscan los materiales y pagan los pedreros y carpinteros, y si ellos mesmos no traen qué comer, ayunan. Todos los materiales traen a cuestas; las vigas y piedras grandes traen arrastrando con sogas, y como les faltaba el ingenio y abundaba la gente, la piedra o viga que había menester cien hombres, traíanla cuatrocientos. Y tienen de costumbre de ir cantando y dando voces, y los cantos y voces apenas cesaban de noche ni de día, por el gran hervor que traían en la edificación del pueblo los primeros años</italic>”.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn03">
                <label>3</label>
                <p>No original: “<italic>The organization of early colonial construction crews [...] followed closely the pattern of pre-Conquest labor organization. The colonists had to utilize large quantities of unskilled Indian labor, and in its mobilization, they were forced to revive and implement certain pre-Conquest modes of civil and political authority. [...] But to utilize Indian labor, the colonists had to be sure of the collaboration of the men who commanded Indian society. Whenever Indian labor was adapted to European uses, in quantities where social discipline was essential for the efficient use of the labor, it may be assumed that Indian chiefs and headmen were retained in power. Political, economic, military, or moral pressures secured the chiefs’ collaboration. Some Indians participated in the colonial enterprise in order to retain their previous powers; others were bought, and still others were coerced. Some were reéducated, and, perhaps, morally persuaded into Christian service</italic>”.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn04">
                <label>4</label>
                <p>No original: “<italic>But the Indians were not interested only in learning new techniques. Their interest in new techniques presupposes something else. It presupposes a vital interest in productive workmanship itself. The Indians were not concerned merely to earn a living by European industrial methods and practices.</italic> [...] <italic>The exercise of any craft was governed by religious rites and invocations.</italic> [...] <italic>In other words, the workmen produced their wares for specific and consecrated purposes, rather than for the unidentified consumers of a public market. In pre-Conquest Indian society, it is generally true that all work was punc tuated by ritual and festival occasions; and that work itself was ceremonially per formed. In colonial life, however, the Spaniards do not seem to have comprehendedthat, for the Indian, no work was worth doing which was not infused by ceremonial symbolism. In Christian life, work and worship are separate concepts. Under Christian direction, the Indian was expected to do unadorned work for six days, divorced from all forms of ritual behavior. His daily devotions had nothing to do with his work, and labor itself, from being an exercise of piety, was degraded into physical toil without spiritual compensation</italic>”.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn05">
                <label>5</label>
                <p>No original: “<italic>Mostróse en esta obra Nezahualcoyotl muy valeroso y no menos esforzado Motecuhzuma, porque ellos eran los primeros que ponían mano en esta obra. animando con su ejemplo a todos los demás señores y macehuales que en ella entendían</italic>”.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn06">
                <label>6</label>
                <p>No original: “[...] <italic>mandó llamar á todos los caballeros y Señores que habían quedado con toda la demás gente ilustre, y reunidos les mandó que cada uno de ellos tomase su huacatl, (que son unas como espuertas, ya de madera, ya de cueros de animales), y llevase cargado en él materiales para Mexico para edificar los templos de San Franscisco, Iglesia mayor; é Ixtlilxuchitl, como capitán, siendo el primero en esto, cargó un gran huacatl de cuero de tigre lleno de piedra, se partió á Mexico delante de las gentes ilustres que iban cargadas de piedra, cal y arena, y otros atrás tirando madera, y los fué animando, y entre otras razones les dijo: que tuviesen paciencia y motrasen ánimo,</italic> [...] <italic>y que sus vasallos la gente plebeya tomase ejemplo, para que con más ánimo los que quisiesen seguirlos, fuesen á hacer este servicio á Dio en edficarle su Iglesia</italic> [...] <italic>lo mismo había hecho en la reedificación de Mexico</italic>”.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn07">
                <label>7</label>
                <p>No original: “<italic>En los oficios que de antes sabían se perficionaron los indios después que vieron las obras que hacían los españoles. Los canteros, que eran curiosos en la escultura</italic> [...], <italic>y labraban, sin hierro con solas piedras cosas muy de ver, después que tuvieron picos y escodas y los demás instrumentos de hierro, y vieron obras que los nuestros hacían, se aventajaron en gran manera</italic> [...]<italic>, y han hecho muchas muy gentiles iglesias y casas para españoles. Lo que ellos no habían alcanzado y tuvieron en mucho cuando lo vieron, fue hacer bóvedas, y cuando se hizo la primera (que fue la capilla de la iglesia vieja de S. Francisco de México, por mano de un cantero de Castilla), maravilláronse mucho los indios en ver cosa de bóveda, y no podían creer sino que al quitar de los andamios y cimbria, todo había de venir abajo. Y por esto cuando se ovieron de quitar los andamios, ninguno de ellos osaba andar por debajo. Mas visto que quedaba firme la bóveda, luego perdieron el miedo. Y poco después los indios solos hicieron dos capillitas de bóveda, que todavía duran en el patio de la iglesia principal de Tlaxcala, y después acá han hecho y cubierto muy excelentes iglesias de bóveda</italic> [...]. <italic>Y finalmente, esto se puede entender por regla general, que cuasi todas las buenas y curiosas obras que en todo género de oficios y artes se hacen en esta tierra de Indias (a lo menos en la Nueva España), los indios son los que las ejercitan y labran, porque los españoles maestros de los tales oficios, por maravilla hacen más que dar la obra a los indios y decirles cómo quieren que la hagan. Y ellos la hacen tan perfecta, que no se puede mejorar</italic>”.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn08">
                <label>8</label>
                <p>No original: “[...] <italic>porque el fervor y ejercicio en la obra de la salvación de las ánimas ya parece que del todo ha cesado: ya murió el primitivo espíritu; ya de los naturales recién conversos no hay el concurso que solía á la Iglesia de Dios para oir su palabra, para confesar su fe y doctrina, y para recibir sus santos sacramentos;</italic> [...]. <italic>Pues qué será la causa de todo esto? de dónde procede? qué principio ha tenido? de cuándo acá tanta revolución y mutanza adonde la viña de Dios solía ser tan fructífera y abundante, que</italic> [...] <italic>ni faltaba otra cosa sino obreros que la vendimiasen?</italic>”.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn09">
                <label>9</label>
                <p>No original: “<italic>Given his pre-Conquest antecedents, the Indian naturally attempted to redeem his labor by ceremonial performances. The process of compensation is recorded in the Códice del Tecpan. The detailed account of the construction of the public buildings of the community</italic> [...], <italic>between 157</italic><italic>6 and 158</italic><italic>1, reveals the religious character of Indian communal enterprise. Using the symbols and expressions of Christianity, the Indians attempted to identify their work with religious behavior. Far more than in European documents of the same class, the Trinity is invoked as the patron of the undertaking; and the Christian God and Jesus Christ are repeatedly brought into discussion. The laying of the cornerstone was blessed by the resident friar, and the finished edifice was consecrated by the archbishop. At every stage of construction, religious observances were held</italic>”.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn10">
                <label>10</label>
                <p>No original: “<italic>In all matters pertaining to Indian participation in building operations, it is interesting to revert to the invaluable Códice del Tecpan de Tlatelolco. There we see that when the Indians were working for themselves, they labored swiftly and efficiently, through the worst plague in the history of Mexico, and during the greatest single depletion the Indian race experienced, to produce the buildings which were to prevent their humiliation by the Spaniards</italic>”.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn11">
                <label>11</label>
                <p>No original: “<italic>Unless he could provide them himself, his employer was unlikely to incur the cost of rental and the risk of loss. It is therefore likely that Indians manufactured more European-style tools than their employers provided. When labor was free, or nearly so, and tools were costly, the employer was not likely to economize labor and squander money on tools</italic>”.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn12">
                <label>12</label>
                <p>No original: “<italic>In 155</italic><italic>6, Archbishop Montúfar complained that the Indians were brought by the friars to work on the great monastic churches “in gangs of 50</italic><italic>0, 60</italic><italic>0, or 1,00</italic><italic>0, from a distance of four, six, or twelve leagues, without ...any wages, or even a crust of bread.” At Yanhuitlan, in the 157</italic><italic>0’s, the Indians assigned to the cuatequil for the church numbered six thousand. These were divided in ten shifts of six hundred each, which were charged with transporting stone, lime and water for the fabric. These numbers did not include the artisans who worked the stone, mixed the mortar, and assisted the European craftsmen who directed the enterprise. The Europeans’ assistants, however, were selected from among the most competent workmen in the undifferentiated, unskilled laboring mass</italic>”.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn13">
                <label>13</label>
                <p>No original: “[...] <italic>si á la iglesia mayor de México le bastan para entender en su edificio ciento ó doscientos indios, por qué han de llevar allí millares de ellos con tanta violencia y pesadumbre</italic> [...]<italic>?</italic>”.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn14">
                <label>14</label>
                <p>No original: “<italic>The initial success of any colonial building campaign depends in part upon the state of building knowledge among the native peoples.</italic> [...] <italic>if the Indians were lacking more advanced techniques, they were at least equipped with basic skills</italic> [...]. <italic>The state of technical knowledge varied widely from tribe to tribe. In western Mexico, for example, the sparse villages possessed little tradition of monumental building</italic> [...]. <italic>In southern Mexico, on the other hand, among the Zapotecs and Mixtecs, the Dominicans discovered an abundant and docile supply of unskilled building labor, well accustomed to monumental undertakings</italic>”.</p>
            </fn>
        </fn-group>
        <ref-list>
            <title>REFERÊNCIAS</title>
            <ref id="B01">

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                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="compiler">
                        <name>
                            <surname>ANTUNES</surname>
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                    <source>Lukács, um galileu no século XX</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
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                <element-citation publication-type="book">
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            </ref>
            <ref id="B03">

                <mixed-citation>FERRO, S. <italic>A história da arquitetura vista do canteiro</italic>: três aulas de Sérgio Ferro. São Paulo: GFAU, 2010.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
                    <person-group person-group-type="author">
                        <name>
                            <surname>FERRO</surname>
                            <given-names>S.</given-names>
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                    <source><italic>A história da arquitetura vista do canteiro</italic>: três aulas de Sérgio Ferro</source>
                    <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
                    <publisher-name>GFAU</publisher-name>
                    <year>2010</year>
                </element-citation>
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            <ref id="B04">

                <mixed-citation>GRUZINSKI, S. Os índios construtores de catedrais: mestiçagens, trabalho e produção na Cidade do México, 1550-1600. <italic>In</italic>: PAIVA, E. F.; ANASTASIA, C. M. J. (org.). <italic>O trabalho mestiço</italic>: maneira de pensar e formas de viver: séculos XVI a XIX. São Paulo: Annablume; PPGH/UFMG, 2002. p. 323-340.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
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                    </person-group>
                    <chapter-title>Os índios construtores de catedrais: mestiçagens, trabalho e produção na Cidade do México, 1550-1600</chapter-title>
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