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            <journal-title>Revista Oculum Ensaios</journal-title>
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            <publisher-name>Pontifícia Universidade Católica de Campinas</publisher-name>
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         <article-id pub-id-type="doi">10.24220/2318-0919v22e2025a9736</article-id>
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            <article-title>O interior das escolas profissionais femininas</article-title>
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               <trans-title>Inside Women’s Professional Schools</trans-title>
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                  <given-names>Ana Maria Reis de Góes</given-names>
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            <institution content-type="orgname">Universidade Estadual de Campinas</institution>
            <institution content-type="orgdiv1">Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo</institution>
            <institution content-type="orgdiv2">Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, Tecnologia e Cidade</institution>
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               <city>Campinas</city>
               <state>SP</state>
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            <country country="BR">Brasil</country>
            <institution content-type="original">Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, Tecnologia e Cidade. Campinas, SP, Brasil.</institution>
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         <author-notes>
            <corresp id="c01">Correspondência para/<italic>Correspondence to</italic>: A. M. R. G. Monteiro. <italic>E-mail</italic>: <email>anagoes@unicamp.br</email>.</corresp>
            <fn fn-type="edited-by">
               <label>Editora</label>
               <p>Patrícia Samora</p>
            </fn>
            <fn fn-type="conflict">
               <label>Conflito de interesses</label>
               <p>Não há conflito de interesses.</p>
            </fn>
         </author-notes>
         <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
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               <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (<italic>Open Access</italic>) sob a licença <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
            </license>
         </permissions>
         <abstract>
            <title>Resumo</title>
            <p>Este artigo tem como objetivo relacionar elementos comuns encontrados no interior das Escolas Profissionais Femininas que existiram no início do século XX a partir de um importante exemplar que foi a Escola Profissional Feminina de São Paulo, atual Escola Técnica Estadual Carlos de Campos, inaugurada em 1911 no bairro do Brás em São Paulo e que acolheu meninas interessadas em tornarem-se boas donas de casa e mães. Durante o desenvolvimento da pesquisa sobre a arquitetura dessa escola foi possível levantar objetos e elementos construtivos ainda existentes no interior da edificação que contribuíram e contribuem para o direcionamento pedagógico de tantos cursos profissionais oferecidos. Como parte da metodologia, esses elementos foram fotografados, descritos e situados em planta na antiga Escola Profissional Feminina de São Paulo. Agora eles serão classificados de acordo com suas funções como armazenar, expor, comunicar, enaltecer trabalhos e identificados em outras escolas profissionais femininas do mesmo período, a partir de suas fotografias. O objetivo é estabelecer uma relação comum de uso desses elementos no contexto do modelo de ensino. Os resultados encontrados apontam para uma similaridade na existência de alguns elementos em escolas profissionais femininas congruentes na forma de dispor para que seja possível estabelecer um diálogo entre alunas e o que era necessário ser ensinado.</p>
         </abstract>
         <trans-abstract xml:lang="en">
            <title>Abstract</title>
            <p>This article aims to relate common elements found within the Women’s Professional Schools that existed in the early twentieth century based on an important example that was the Escola Profissional Feminina de São Paulo, current Escola Técnica Estadual Carlos de Campos. This school opened in 1911 in the Brás neighborhood in São Paulo and welcomed girls interested in becoming good housewives and mothers. During the development of the essay on the architecture of this school, it was possible to raise objects and constructive elements still existing inside the building that contributed and contribute to the pedagogical direction of so many professional courses offered. As a methodology, these elements were photographed, described and located in the plan of Escola Profissional Feminina de São Paulo and at that time they will be classified by function such as storing, exhibiting, communicating or honoring and identified in other female professional schools of the period from their photographs to that it is possible to establish a common relationship of use in this teaching model. The results found point to a similarity in the existence of some elements in congruent female professional schools in the way they are arranged so that it is possible to establish a dialogue between students and what was necessary to be taught.</p>
         </trans-abstract>
         <kwd-group xml:lang="pt">
            <title>Palavras-chave</title>
            <kwd>Arquitetura Escolar</kwd>
            <kwd>Educação Feminina</kwd>
            <kwd>Ensino Profissionalizante</kwd>
            <kwd>Mobiliário Escolar</kwd>
            <kwd>Patrimônio Cultural</kwd>
         </kwd-group>
         <kwd-group xml:lang="en">
            <title>Keywords</title>
            <kwd>School Architecture</kwd>
            <kwd>Female Education</kwd>
            <kwd>Vocational Education</kwd>
            <kwd>School Furniture</kwd>
            <kwd>Cultural heritage</kwd>
         </kwd-group>
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   <body>
      <sec sec-type="intro">
         <title>Introdução</title>
         <p>No final do século XIX e início do século XX a educação para as mulheres passou por uma transformação no que diz respeito a sua formação voltada para o trabalho. Ela começava a ser vista como mão de obra que necessitava de especialização, porém com demandas específicas que lhes eram atribuídas. No Brasil republicano o governo começou a implantar as escolas profissionais que ofereciam unidades e cursos diferenciados por gênero. Nas escolas profissionais femininas, os estudos eram especialmente voltados para tarefas domésticas e o cuidado da família, com cursos relacionados à economia doméstica. Com o tempo, as mulheres passaram a desempenhar o papel de disseminadoras da educação sanitária e das ideias eugênicas.</p>
         <p>Inaugurada em 1911, a Escola Profissional Feminina de São Paulo, atualmente chamada de Escola Técnica Estadual Carlos de Campos e administrada pelo Centro Paula Souza, foi uma dessas; estabelecida sob o mesmo decreto que criou a Escola Profissional Masculina, futuramente chamada de Escola Técnica Estadual Getúlio Vargas. Inicialmente a Escola Profissional Feminina foi implantada em uma edificação do tipo chalé paulistano e no ano de 1930 recebeu um prédio de arquitetura monumental com projeto parcialmente construído e que cumpre a função de escola profissional até a atualidade.</p>
         <p>Para este estudo tal escola foi escolhida como referência porque além da arquitetura singular, ela ainda preserva elementos em seu interior que contribuíram para a educação daquelas meninas ou de alguma forma são elementos que tinham relação com o que era visto como referência ao universo feminino. Após levantamento e identificação desses itens, fotos de outras escolas profissionais femininas brasileiras e francesas do período foram selecionadas para que fosse possível analisar similaridades entre os aspectos de móveis, objetos e materiais observados nas imagens.</p>
         <p>A materialidade desses objetos, suas dimensões, cores e formas, associada ao significado carregado de conteúdo histórico, confere aos artefatos uma importância única na ativação da memória. Sua durabilidade, frequentemente ultrapassando a vida de seus produtores e usuários originais, faz com que esses objetos carreguem uma aura que transporta e ativa o passado naqueles que os experienciam. <xref ref-type="bibr" rid="B10">Meneses (1998)</xref> destaca que a simples durabilidade do artefato o torna apto a expressar o passado de forma profunda e sensorialmente convincente. No contexto da Escola Técnica Estadual Carlos de Campos, antiga Escola Profissional Feminina, a arquitetura e os artefatos presentes não apenas preservam um legado histórico, mas também participam ativamente na construção de uma memória cultural. <xref ref-type="bibr" rid="B12">Smith (2006)</xref> desafia a visão tradicional de patrimônio como meros “objetos” ou “lugares”, propondo em vez disso um conceito de patrimônio como um processo cultural baseado em significado e memória.</p>
         <p>Não é necessário explicar a nenhum aluno atual que certos móveis ou elementos possuem valor histórico, independentemente de sua data de fabricação ou tempo de uso. A composição dos materiais, a diferenciação entre eles e a forma como foram produzidos revelam claramente uma distância temporal em relação aos artefatos modernos. Seja qual for a condição desses objetos, sua presença no ambiente escolar confere-lhes um significado especial e desperta admiração. Esses objetos, ao terem sido parte do cotidiano de muitos alunos antes, ajudam a construir uma identidade e um vínculo com o passado.</p>
         <p>Assim, os artefatos escolares e a própria edificação da escola contribuem para a preservação e reinterpretação das identidades e histórias femininas, refletindo um momento em que rigorosas normas de gênero que moldaram a formação das alunas. De forma análoga ao que <xref ref-type="bibr" rid="B05">Carvalho (2020)</xref> argumenta sobre o papel simbólico dos objetos domésticos na construção de identidades sociais diferenciadas por gênero na casa observando o mesmo recorte temporal. Os espaços educativos, especialmente as escolas profissionais da época, também incorporam artefatos que simbolizam atividades associadas ao feminino, moldando e reforçando as identidades das alunas de maneira similar à observada nos contextos domésticos.</p>
         <p>Estudar esses modelos escolares oferece uma perspectiva importante sobre como artefatos domésticos podem transcender o ambiente doméstico. Como podem ter sido integrados ao contexto escolar e associação com as mulheres. No caso da ETEC Carlos de Campos, a presença e o uso contínuo de móveis e objetos ao longo dos anos têm desempenhado um papel crucial na dinâmica da escola. Esses itens constituem um acervo de memória que confere ao espaço um significado histórico e cultural único, integrando-o à cultura material da instituição. Além de refletirem a história do trabalho feminino e a resiliência diante das adversidades, moldam um ambiente educacional que celebra anualmente sua história e preserva essas dimensões históricas e culturais.</p>
         <p>Dessa forma, o artigo objetiva analisar os artefatos e elementos encontrados no interior de três escolas profissionais femininas do final do século XIX e início do século XX. A partir de imagens de escola similares, será possível atribuir maior significado aos itens existentes ainda hoje na ETEC Carlos de Campos e a análise do interior de instituições com finalidades equivalentes permitirá identificar recursos similares que eram utilizados para ensinar e aprender sobre aquilo que era visto como profissão designada às mulheres do período.</p>
      </sec>
      <sec sec-type="methods">
         <title>Procedimentos Metodológicos</title>
         <p>Para o desenvolvimento deste artigo foi retomada a bibliografia levantada para a realização de dissertação sobre a arquitetura da Escola Profissional Feminina de São Paulo. A temática relacionada às instalações existentes dessa escola (Escola Técnica Estadual Carlos de Campos) bem como o material levantado para os estudos de caso de escolas profissionais femininas do período, que apresentaram base para análise e reflexões sobre o interior de ambientes escolares desses modelos de escolas voltadas para a educação feminina para o trabalho.</p>
         <p>Como procedimento metodológico foram selecionadas fotografias da antiga Escola Profissional Rivadavia Correa, que funcionou no Rio de Janeiro a partir de 1913 (<xref ref-type="bibr" rid="B07">Fonseca, 1961</xref>) e que tinha proporções similares à Escola Profissional Feminina de São Paulo. O trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B03">Bonato (2008)</xref> foi a referência sobre essa escola por trazer histórico e fotografias de ambientes escolares inclusive com alunas em sala de aula, o que pode enriquecer a análise dos ambientes pela verificação das tarefas que eram realizadas e a relação do indivíduo com o espaço.</p>
         <p>Além da escola brasileira, na busca por escolas profissionais femininas em outros países, observou-se em Paris o surgimento de numerosas dessas instituições de meados do século XIX em diante, principalmente graças à crescente demanda de mão de obra para ateliês da alta costura. A fonte inusitada de pesquisa encontrada com fotografias do período que mostravam o interior dessas escolas foram cartões postais antigos comercializados na internet. Havia diferenças entre Écoles Menagères, que eram destinadas ao ensino de atividades domésticas e École Professionelles, aquelas para o ensino de profissões não necessariamente relacionadas ao lar, com função de atendimento ao mercado. Muitas imagens foram encontradas nesse tipo de site que oferece cartões postais para colecionadores, e essa demonstrou ser uma relevante fonte de pesquisa para assuntos desse período e temática, por oferecer uma base de dados de qualidade, riqueza de variedade e possibilidades de busca. Um ponto que também ajudou na pesquisa desses cartões postais é que eles descrevem a localização onde a fotografia foi tirada. Todos os cartões encontrados possuíam a seguinte sequência de informações grafada na base: país, escola, ambiente, indicando o que era ensinado em cada ambiente escolar. Esses dados contribuíram para uma análise geográfica precisa e permitiram avaliar cada cômodo sem a interferência de vieses associados a perspectivas contemporâneas.</p>
         <p>A École Professionnelle Émile Dubois em Paris foi escolhida para a análise por oferecer à essa pesquisa nove cartões postais com diferentes ambientes que vão desde o Atelier de Espartilhos (Corsets), de Modas (Modes), de Bordado (Borderie) até áreas escolares como o Pátio (Preau), Sala da Diretora (Bureau de Madame Directrice) e Vestíbulo (Vestibule). Com essas imagens de cartões postais de diversas áreas do imóvel, foi possível estabelecer uma ideia do que seria a instituição como um todo, como funcionava, que cursos oferecia, materiais didáticos que utilizava, mobiliário escolar e sua disposição nas salas ou nos ateliês. Infelizmente nenhum dos cartões trazia fotos das alunas, o que poderia enriquecer a análise. Nem todas as imagens encontradas serão expostas no presente artigo; foram selecionadas as que possuem maior relação com as escolas profissionais femininas brasileiras.</p>
         <p>Com relação à análise realizada e que alinhavou as três escolas profissionais femininas, <xref ref-type="bibr" rid="B10">Meneses (1998)</xref> serviu como referência no tocante à relação do objeto, sua trajetória e a relação que se estabelece com o indivíduo. O uso da fotografia, seja na busca em trabalhos acadêmicos, cartões postais ou no levantamento fotográfico realizado, permitiu observar as relações entre as escolas e os seus ambientes. Esses espaços incluíam objetos didáticos diferenciados do ensino propedêutico, pois eram voltados para a formação profissional destinada às mulheres.</p>
         <sec>
            <title>Permanências na materialidade da Escola Profissional Feminina</title>
            <p>O passado é frequentemente reinterpretado para refletir as necessidades e valores do presente, revelando a complexa relação entre identidade e história (<xref ref-type="bibr" rid="B08">Lowenthal, 1985</xref>). Essa relação entre passado e presente é estimulada por elementos e mobiliários no ambiente escolar da Escola Técnica Estadual Carlos de Campos, antiga Escola Profissional Feminina, um símbolo das transformações no trabalho feminino e das concepções sobre o papel das mulheres em São Paulo no início do século XX.</p>
            <p>A racionalização do trabalho nas fábricas se estendeu ao regime doméstico, onde as mulheres, assim como os primeiros operários fabris, foram inseridas nesse processo. <xref ref-type="bibr" rid="B09">McClintock (2010)</xref> argumenta que embora fossem excluídas das esferas de poder público pela teoria liberal masculina e por imposições legais e econômicas, as mulheres participaram ativamente na racionalização do lar, o que gerou uma relação complexa e contraditória com a domesticidade. Algumas escolas assumem esse papel desenhando a configuração de uma classe média ainda em formação e mostram como as mulheres desempenhavam um papel central na criação da identidade dessa classe social.</p>
            <p>O culto à domesticidade e à racionalidade industrial se entrelaçou de forma profunda no século XIX, reorganizando os espaços domésticos com rigorosa ordem e classificação, refletindo a crescente importância desses valores na vida cotidiana. Essa racionalização se manifestava em práticas como a cuidadosa manutenção dos pertences e a mensuração precisa das atividades domésticas (<xref ref-type="bibr" rid="B09">McClintock, 2010</xref>). O produto dessas mudanças é o surgimento de manuais de conduta e de escolas profissionais voltadas para as mulheres.</p>
            <p>A Escola Profissional Feminina de São Paulo, cuja imponente fachada foi projetada por Achilles Nacarato e Cesar Marchísio e que permanece na Rua Monsenhor Andrade, no bairro do Brás, é um exemplar notável de como as instituições educacionais podem refletir e moldar ideais sociais e culturais. O prédio que possui características da arquitetura institucional da Primeira República, está inserido em um contexto urbano vibrante, conhecido por seu comércio de vestuário com preço acessível e pela movimentada Feira da Madrugada. No entanto, apesar da presença constante de visitantes e da transformação ao seu redor, a escola é situada em uma rua sem saída, é pouco notada e representa um símbolo silencioso da importância do trabalho feminino, cuja relevância foi muitas vezes ofuscada. Hoje suntuosas árvores ocultam a fachada do edifício, acentuando a forma como o significado do trabalho feminino – seja ele operário, doméstico ou científico – continua a ser socialmente subestimado e frequentemente eclipsado (<xref ref-type="fig" rid="f01">Figura 1</xref>).</p>
            <fig id="f01">
               <label>Figura 1</label>
               <caption>
                  <title>Fachada da Escola Técnica Estadual Carlos de Campos.</title>
               </caption>
               <graphic xlink:href="2318-0919-oa-22-e259736-gf01.jpg"/>
               <attrib>Fonte: Fotografia tirada pela autora em outubro de 2021.</attrib>
            </fig>
            <p>Aqui pretendemos extrapolar a fachada e o que pode ser visto ou percebido nela, buscamos elementos e objetos de seu interior que ainda compõe a materialidade da escola. A materialidade é definida como a composição de elementos tangíveis de um objeto tais como a forma, cor, textura e assume grande relevância na compreensão do passado e preservação do patrimônio cultural (<xref ref-type="bibr" rid="B08">Lowenthal, 1985</xref>). Ao adentrar o edifício, o vestíbulo recebe os visitantes, alunos e professores, exibindo alguns quadros comemorativos dos aniversários da escola centenária. Na sequência o observador não caminhará apenas por um corredor, mas pelo que foi chamado na planta original de “Galeria”, nome que se repete na projeção dos três pavimentos do edifício monumento, apenas nas circulações que formam uma linha paralela com a fachada principal com 4 metros de largura. Nesses espaços encontramos a maior parte dos objetos que foram selecionados e trabalhados neste artigo.</p>
            <p>A primeira galeria conta com um armário expositivo no eixo de acesso que ora mostra artefatos e objetos usados nas aulas ou trabalhos de bordado das antigas alunas da escola profissional, ora mostra trabalhos dos alunos recentes. Nas fotos que se seguem é possível observar a exposição de cerâmicas e aparelhos de jantar e servir, bem como equipamentos utilizados nos cursos profissionais e que também podem ser encontrados no Centro de Memória da Escola Técnica Estadual Carlos de Campos (<xref ref-type="fig" rid="f02">Figura 2</xref>). A galeria também conta com piano e obra de arte elaborada por alunos e professora em comemoração aos 90 anos da escola.</p>
            <fig id="f02">
               <label>Figura 2</label>
               <caption>
                  <title>Prateleira de exposição de trabalhos.</title>
               </caption>
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               <attrib>Fonte: Fotografia tirada pela autora em outubro de 2021.</attrib>
            </fig>
            <p>Ao iniciar seu percurso pela edificação, aquele que caminha rumo à ala esquerda na primeira galeria da escola logo encontrará uma ríspida transição para outro prédio, com pé direito mais baixo, sem ornamentos e com os aspectos de uma arquitetura que foi muito comum para a construção de grupos escolares. Trata-se do trecho da escola que fora interrompido nos anos 1930 cuja construção foi retomada apenas em 1976 em um outro momento da arquitetura e da instituição. Ao tomar o rumo da ala direita nessa galeria, o projeto construído em 1930 é íntegro e apresenta uma circulação com largura inferior à da galeria que leva às salas de aula. Para a circulação vertical ainda existe um elevador da marca Atlas desativado de caixa aberta e porta pantográfica circunscrito por uma escada de mármore carrara, com deformação central de degraus que evidencia os anos de uso pela comunidade escolar que caminhou nesta edificação (<xref ref-type="fig" rid="f03">Figura 3</xref>).</p>
            <fig id="f03">
               <label>Figura 3</label>
               <caption>
                  <title>Escada em mármore e elevador com porta pantográfica.</title>
               </caption>
               <graphic xlink:href="2318-0919-oa-22-e259736-gf03.jpg"/>
               <attrib>Fonte: Fotografia tirada pela autora em outubro de 2021.</attrib>
            </fig>
            <p>A galeria do primeiro andar é repleta do que podemos classificar como mobiliário expositivo e de armazenamento. São ao todo 10 móveis de exposição e 5 cômodas de armazenamento de trabalhos, principalmente desenhos, com tampo que também serve de exposição (<xref ref-type="fig" rid="f04">Figura 4</xref>). Tais móveis são de uso contínuo, alguns com frequência de substituição e outros de exposição permanente como o das miniaturas de cadeiras para a apreciação principalmente do curso de Design de Interiores. Alguns expositores são fixados na parede e outros também em madeira e vidro, mas com observação de trabalhos no plano. Existe um modelo parecido com aquele que expõe objetos no térreo, uma cristaleira, que evidencia objetos maiores além de iluminá-los e permite uma elaboração maior dos objetos expostos permitindo a composição de fundo.</p>
            <fig id="f04">
               <label>Figura 4</label>
               <caption>
                  <title>Corredores da Escola Técnica Estadual Carlos de Campos e armários expositivos.</title>
               </caption>
               <graphic xlink:href="2318-0919-oa-22-e259736-gf04.jpg"/>
               <attrib>Fonte: Fotografia tirada pela autora em outubro de 2021.</attrib>
            </fig>
            <p>A galeria do primeiro andar assume uma importância arquitetônica por ser o ambiente que contém o percurso que leva à sala do diretor. Localizada na área central da fachada e composta por duas outras salas de apoio essa área dá acesso a uma varanda em formato sinuoso onde seus diretores puderam usufruir de uma vista da cidade ainda desobstruída da cidade de São Paulo graças ao espaço por onde passa a linha férrea. Nessa varanda destacam-se assentos em ferro forjado com arabescos e florais, totalizando 11 e uma mesa lateral. Sete dessas cadeiras do mesmo modelo com braço em madeira e o conjunto de outras quatro com o mesmo ornamento e braço sem o acabamento em madeira.</p>
            <p>Não foi possível identificar a data de execução desse mobiliário, mas dado o desgaste principalmente no trecho de madeira sugere-se que esses itens estiveram presentes em algumas gestões de diretores da escola, não apenas compondo o layout da varanda, mas como parte integrante dela; são sinuosas como a linha da varanda e algumas janelas do edifício. Apesar de remeter a estereótipos de gênero, é uma realidade a associação que já foi feita da curva e sinuosidade com o universo feminino por vincular a características como delicadeza, feminilidade, suavidade.</p>
            <disp-quote>
               <p>Não é o ângulo reto que me atraia, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos rios, nas nuvens do céu, no corpo da mulher amada. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein</p>
               <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B11">Niemeyer, [1988]</xref>, online).</attrib>
            </disp-quote>
            <p>Esses são elementos selecionados como relevantes tanto pelo uso contínuo – no caso dos expositores, cadeiras ou mesmo o piano, ainda utilizado pelos alunos no intervalo de aulas – ou pelo uso interrompido, como é o caso do elevador, que hoje não cumpre as normas vigentes, mas torna-se um exemplar mecânico de elevadores ao retratar um momento histórico. Compreendem, portanto alguns dos itens significativos encontrados no interior da Escola Estadual Carlos de Campos, antiga Escola Profissional Feminina que fazem parte da sua materialidade e que trazem significado diretamente vinculado a arquitetura. São elementos identificados como relevantes para a assimilação histórica e cultural da edificação.</p>
            <p>Por fim, apresentamos uma fotografia de 1929 que retrata as alunas da Escola Profissional Feminina de São Paulo, envolvidas na confecção de um chapéu modelo “cloche” tradução para sino em francês. Essa imagem oferece uma oportunidade singular para explorar a intersecção entre gênero e espaço. Ao examinarmos os detalhes, como o corte de cabelo “la garçonne” adotado pelas alunas, a escolha do chapéu “cloche” e o ambiente do ateliê, podemos desvendar as normas sociais e hierarquias que moldavam a experiência educativa feminina na época. O corte de cabelo curto e andrógino, simbolizava a emancipação feminina e a quebra dos padrões de beleza tradicionais. A confecção do chapéu “cloche”, um acessório emblemático da moda feminina dos anos 1920, observa a sala de aula com mesas duplas, armários ao fundo e manequins de suporte de chapéus, elementos pedagógicos presentes no espaço articulado para o ensino de um processo de produção que não era necessariamente vinculado a atividades domésticas, mas que associava a mulher à habilidade manual e à moda (<xref ref-type="fig" rid="f05">Figura 5</xref>).</p>
            <fig id="f05">
               <label>Figura 5</label>
               <caption>
                  <title>Aula do curso de chapéus da Escola Profissional Carlos de Campos.</title>
               </caption>
               <graphic xlink:href="2318-0919-oa-22-e259736-gf05.jpg"/>
               <attrib>Fonte: Álbum fotográfico da III Conferência Nacional da Educação (<xref ref-type="bibr" rid="B06">Catálogo [...], 1929</xref>).</attrib>
            </fig>
         </sec>
         <sec>
            <title>Confecção do chapéu “cloche” (do francês “sino”), um acessório emblemático da moda feminina dos anos 1920, pelas alunas do ensino profissional</title>
            <p>Para este estudo foram consideradas as escolas profissionais femininas que, diferentemente de internatos ou asilos, não possuíam fins assistencialistas para crianças desamparadas. As escolas profissionais buscavam oferecer uma formação voltada para o trabalho, eram instituições estabelecidas sem o intuito de acolhimento de crianças, onde elas não pernoitavam, seguiam o regime de externato. A formação para algum ofício era oferecida nos internatos, porém com o intuito de possibilitar ao jovem um encaminhamento para o trabalho de forma a conquistar sua independência e ceder seu lugar a outra criança possivelmente órfã ou que necessitava de cuidados além da educação, mas de abrigo.</p>
            <p>As escolas profissionais têm origem vinculada às instituições assistencialistas, porém são impulsionadas como instrumentos de crescimento do país com intenções vinculadas ao progresso tecnológico portanto com interesse do Estado na formação de mão de obra para o mercado. Ao final do século XIX existia um momento em que muitos países como França, Inglaterra e Estados Unidos exibiam seus avanços em jornais, revistas e nas Feiras Internacionais despertando interesse de outros governos que enxergaram na educação profissional uma das formas de atingir mais rapidamente um patamar de desenvolvimento que reduzissem o abismo que os distanciava cada vez mais.</p>
            <p>No que diz respeito a escolas profissionais para mulheres, Paris possui uma referência enquanto fundadora desse modelo de ensino. Trata-se de Elisa Lemonnier, que comovida pelos problemas sociais causados pela Revolução de 1848, criou a Sociedade Protetora Materna (Société de protection Maternelle) em 1856, e no ano de 1862 inaugurou a primeira escola profissional para mulheres em uma sala. Logo abriu uma segunda escola e o sucesso deste modelo de educação foi tamanho que serviu como modelo para países como Suíça, Bélgica e Itália. Suas escolas obtiveram medalha de ouro na Exposição Universal de 1878, o que ajudou a oficializar o novo modelo de ensino em Paris. O município abriu as primeiras escolas profissionais para meninas em 1882 e passou a adotar o programa das escolas de Lemonnier (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Toussaint, [20--?]</xref>).</p>
            <p>A indústria da moda estava em plena expansão em Paris, que não apenas exportava moldes de roupas, mas também oferecia cursos como corte e costura, confecção de chapéus, rendas e bordados, que estariam ampliando as possibilidades de atuação feminina para além das tarefas domésticas. Essas formações, oferecidas pelas Écoles Ménagères (Escolas Domésticas), visavam aperfeiçoar habilidades tradicionalmente desenvolvidas no âmbito do lar, mas com um enfoque na inserção das mulheres no mercado de trabalho.</p>
            <p>Considerando as origens desse modelo de escola para mulheres, a pesquisa buscou imagens das escolas profissionais de Paris com o intuito de analisar o aspecto espacial, disposição e recursos utilizados para o ensino feminino. Foi possível encontrar uma quantidade maior de imagens registradas em cartões postais do interior da École Professionnelle Emile-Dubois, inaugurada em 1889 (<xref ref-type="bibr" rid="B02">Belin-Wurmser, 2019</xref>) que aparentemente não fazia parte do conjunto de escolas inauguradas por Lemonnier mas que possui rico material para o presente interesse de análise. As fotos foram registradas em diversos ambientes da instituição, como pátio, sala da diretora, ateliê de moda (chapéus), de colete e roupas para meninos, de espartilhos, provador, ateliê de bordado, vestíbulo. Foram selecionados dois espaços de aulas – o ateliê de bordado e o ateliê de moda para a confecção de chapéus e um espaço de circulação, o vestíbulo para análise de elementos no interior dos ambientes.</p>
            <p>O ateliê de bordado dessa escola era amplo (<xref ref-type="fig" rid="f06">Figura 6</xref>), com pé-direito alto e equipado com diversas ferramentas de produção, como teares distribuídos sobre bancadas. Em uma dessas bancadas, destaca-se uma roca de fiar, símbolo da Escola Profissional Feminina de São Paulo. Nesse ambiente, os trabalhos eram expostos nas paredes, e armários de madeira escura estavam presentes em todas as salas de aula observadas. A oficina, assim como o ateliê de moda, apresentava alguns chapéus, evidenciando a semelhança com o curso de confecção de chapéus oferecido pela Escola Profissional Feminina de São Paulo, com bancadas lineares dotadas de gavetas. Ao fundo, junto às paredes, encontram-se os mesmos modelos de armários utilizados para armazenar materiais e trabalhos, conforme visto nesse postal.</p>
            <fig id="f06">
               <label>Figura 6</label>
               <caption>
                  <title>Cartão Postal da École Professionnelle Emile-Dubois – Ateliê de Bordado.</title>
               </caption>
               <graphic xlink:href="2318-0919-oa-22-e259736-gf06.jpg"/>
               <attrib>Fonte: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://cartorum.fr/carte-postale/118566/paris-14e-ecole-profesionnelle-emile-dubois-atelier-de-broderie">https://cartorum.fr/carte-postale/118566/paris-14e-ecole-profesionnelle-emile-dubois-atelier-de-broderie</ext-link>. Acesso em: 18, jun. 2023.</attrib>
            </fig>
            <fig id="f07">
               <label>Figura 7</label>
               <caption>
                  <title>Cartão Postal da <italic>École Professionnelle Emile-Dubois</italic>.</title>
               </caption>
               <graphic xlink:href="2318-0919-oa-22-e259736-gf07.jpg"/>
               <attrib>Fonte: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://cartorum.fr/carte-postale/502515/paris-ecole-professionelle-emile-dubois-atelier-de-modes">https://cartorum.fr/carte-postale/502515/paris-ecole-professionelle-emile-dubois-atelier-de-modes</ext-link>. Acesso em: 18 jan. 2025.</attrib>
            </fig>
            <p>A próxima foto do vestíbulo da École Emile-Dubois é um ambiente essencialmente organizado com mobiliário e peças com função expositiva. Em um espaço de circulação da comunidade escolar existiam quadros com figuras e um armário que funcionava como vitrine, muito semelhante ao que até hoje recebe os alunos na Escola Profissional Feminina e ainda é utilizado para expor os trabalhos realizados na instituição. Ao lado direito da imagem não é possível ter certeza de que o móvel em madeira escura também apresentava trabalhos em seu interior, mas acima dele na parede é possível verificar outro quadro contendo imagens, possivelmente trabalhos de alunas que seriam apreciados na circulação de pessoas.</p>
            <p>No Brasil o modelo de ensino não foi inserido apenas em São Paulo. Na década de 1910, o Rio de Janeiro teve algumas tentativas de implantação de escolas profissionais femininas sempre em instalações preexistentes. Foram instituições que passaram por diversas mudanças até que foram encerradas, porém uma delas foi bem-sucedida ou teve duração longeva, a Escola Profissional Feminina Rivadávia Correia. Prefeito da cidade, Rivadávia entendia que “[...] naquele casarão da Praça da República” seria dada a “disciplina conveniente ao sexo feminino” (<xref ref-type="bibr" rid="B04">Bonato, 2003</xref>, p. 123). A edificação monumental foi uma das oitos escolas inauguradas por D. Pedro II em 1877 e funcionou como escola normal até 1914 quando passou a oferecer cursos voltados para a profissionalização feminina.</p>
            <fig id="f08">
               <label>Figura 8</label>
               <caption>
                  <title>Cartão Postal da École Professionnelle Emile-Dubois – Vestíbulo.</title>
               </caption>
               <graphic xlink:href="2318-0919-oa-22-e259736-gf08.jpg"/>
               <attrib>Fonte: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://cartorum.fr/carte-postale/716905/paris-ecole-professionnelle-emile-dubois-vestibule">https://cartorum.fr/carte-postale/716905/paris-ecole-professionnelle-emile-dubois-vestibule</ext-link></attrib>
            </fig>
            <p>A escola oferecia oficinas de prendas domésticas, pintura, chapéus, modelagem, arranjos e flores. Dadas as proporções da edificação, o ensino era oferecido em amplas salas que possuíam pé-direito alto e com muita entrada de luz natural. As salas eram batizadas com o nome de alguma figura homenageada, como é possível observar na imagem abaixo. Para essa escola foi selecionada a fotografia da sala Francisco Alves onde manequins com vestidos e trabalhos de costura são expostos. O material foi encontrado no trabalho de <xref ref-type="bibr" rid="B04">Bonato (2003)</xref> e data de 1923. Existem fotografias de salas de aula repletas de meninas desenvolvendo trabalhos manuais em seus vestidos ou uniformes. Ao fundo, bancos com armários robustos, utilizados para subsidiar as aulas práticas, completavam o cenário. Era um momento na história da educação em que as carteiras eram individuais, não mais bancadas como na École Emile Dubois ou na Escola Profissional Feminina da década de 1910, isso se daria por motivos higienistas e afastamento e possibilidade de circulação entre alunos.</p>
            <fig id="f09">
               <label>Figura 9</label>
               <caption>
                  <title>Exposição de trabalhos e aula técnica na Escola Profissional Feminina Rivadávia Correa.</title>
               </caption>
               <graphic xlink:href="2318-0919-oa-22-e259736-gf09.jpg"/>
               <attrib>Fonte: <xref ref-type="bibr" rid="B01">Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro: Acervo 1: AGCRJ.</xref> Fundo. Coleção: Prefeitura do Distrito Federal/ RJ; Coleção Fotográfica (1903-1958). Autor: Augusto Malta. Data: 1921. Cód. NV 00778 em <xref ref-type="bibr" rid="B04">Bonato (2003, p. 139)</xref>.</attrib>
            </fig>
            <p>A partir das fotos selecionadas, sejam elas em cartões postais franceses, foto histórica presente no trabalho acadêmico de <xref ref-type="bibr" rid="B04">Bonato (2003)</xref> ou fotos de um levantamento atual e de 1929 da Escola Profissional Feminina (de São Paulo) foi possível verificar que elementos se repetem no que diz respeito ao tipo de mobiliário, suas disposições e funções nos diversos ambientes nas instituições. A função de armazenamento em cada sala de aula traz moveis altos, escuros e que dariam suporte para as aulas para a guarda de materiais e trabalhos.</p>
            <p>Chama a atenção nesse modelo de escola a função expositiva de mobiliários dispostos em circulações de alunas ou mesmo no interior das salas de aula prática. Os trabalhos desenvolvidos nas escolas femininas eram expostos em ambientes de circulação, corredores, vestíbulos, ateliês ou galerias das edificações. Os armários e quadros de exposição serviriam de exemplo para outras alunas além de demonstrar com orgulho o potencial que elas possuíam ao desenvolver trabalhos significativos dentro das escolas profissionais.</p>
            <p>Sobre os artefatos e elementos presentes no interior da ETEC Carlos de Campos é possível afirmar que possuem uma biografia, como indica <xref ref-type="bibr" rid="B10">Meneses (1998, p. 92)</xref>, e se interrelacionam a circunstâncias e ambientes encontrados nas imagens de final do século XIX e início do século XX em escolas femininas de outros lugares. A interação social que esses itens promovem na comunidade escolar até os dias de hoje, seja pela curiosidade ou simplesmente pela composição de um ambiente que promove contato com a historicidade da instituição, os tornam dignos de atenção e preservação e ações de conservação.</p>
         </sec>
      </sec>
      <sec sec-type="conclusions">
         <title>Considerações Finais</title>
         <p>A análise da Escola Técnica Estadual Carlos de Campos, antiga Escola Profissional Feminina de São Paulo, revela a importância da materialidade e dos artefatos na preservação e interpretação da história educacional feminina. Como destaca <xref ref-type="bibr" rid="B10">Meneses (1998)</xref>, a durabilidade e o contexto histórico dos artefatos desempenham um papel importante na ativação da memória e na construção do patrimônio cultural. Esses elementos não são meros vestígios do passado, eles são testemunhas da trajetória educativa e social das mulheres que frequentaram a instituição, e, como tal, carregam um valor significativo que vai além de suas funções originais.</p>
         <p>A comparação com outras instituições de ensino feminino, como as escolas profissionais em Paris e no Rio de Janeiro, evidencia as semelhanças nos artefatos e nos ambientes, refletindo certa uniformidade dos modelos educacionais que estavam sendo direcionados às mulheres. O estudo sobre a École Emile-Dubois e a Escola Rivadávia Correia confirma a presença de elementos comuns, como móveis de armazenamento e expositores, que destacam práticas pedagógicas similares e a função expositiva dos ambientes escolares. Esses elementos não apenas facilitavam a educação prática, característica do ensino profissional, mas também promoviam o orgulho no ‘fazer’ e a visibilidade dos trabalhos das alunas.</p>
         <p>A importância dos artefatos presentes na ETEC Carlos de Campos é realçada pela extensão e continuidade de seu uso e pela sua capacidade de conectar o passado ao presente. A presença de objetos históricos e a arquitetura da escola não apenas preservam um legado, mas também ajudam a construir uma narrativa cultural e educacional que ressoa com a identidade da instituição e com a evolução da educação feminina. Os itens em questão, desde o elevador com porta pantográfica desativado até os móveis expositores e o piano, ilustram a mudança nas demandas e valores atribuídos à educação profissional feminina ao longo do tempo.</p>
         <p>A presença desses artefatos em ambientes escolares reflete tanto as normas de gênero quanto as práticas educacionais associadas ao feminino, assim como observado no estudo de <xref ref-type="bibr" rid="B05">Carvalho (2020)</xref>, que analisa o papel simbólico de objetos e ambientes na construção de identidades sociais moldadas pelo gênero no interior dos lares. A escola, nesse sentido, não apenas ensinava habilidades práticas, mas também ajudava a formar a identidade das alunas dentro de um contexto social e cultural específico. Esses artefatos, portanto, transcendem suas funções originais, transformando-se em símbolos de uma época e de um papel social em constante transformação.</p>
         <p>Dessa forma, através de comparações em fotografias de ambientes escolares em um período específico, o estudo sublinha a importância de revisitar e valorizar o patrimônio cultural escolar. O edifício da Escola Profissional Feminina, apesar de sua inserção em um contexto urbano dinâmico, corre o risco de desaparecimento apesar de compreender de seu significado na história do trabalho feminino em São Paulo. A documentação e a preservação dos artefatos e da arquitetura são cruciais para assegurar que as contribuições das mulheres e o desenvolvimento da educação profissional feminina sejam devidamente reconhecidos. Em vez de se perderem, esses elementos devem permanecer como testemunhos vivos de transformações sociais nas quais a educação para as mulheres trabalhadoras começou a se expandir além das competências domésticas tradicionais.</p>
      </sec>
   </body>
   <back>
      <fn-group>
         <fn fn-type="other">
            <p>Artigo elaborado a partir da dissertação de K. G. M. Ferreira, intitulada “As demandas culturais e de trabalho da mulher e seus reflexos na Escola Profissional Feminina de São Paulo de 1910 a 1945”. Universidade Estadual de Campinas, 2022.</p>
         </fn>
         <fn fn-type="other">
            <p>Como citar este artigo/<italic>How to cite this article</italic>: Ferreira, K. G. M.; Monteiro, A. M. R. G. O interior das escolas profissionais femininas. <italic>Oculum Ensaios</italic>, v. 22, e259736, 2025. Doi: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.24220/2318-0919v22e2025a9736">https://doi.org/10.24220/2318-0919v22e2025a9736</ext-link>
            </p>
         </fn>
      </fn-group>
      <ref-list>
         <title>Referências</title>
         <ref id="B01">
            <mixed-citation>Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Augusto Malta. Prefeitura do Distrito Federal, RJ; Coleção Fotográfica (1903-1958). Rio de Janeiro: Suzane Mayer Subgerente de Documentação Especial Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro Secretaria Municipal da Casa Civil.</mixed-citation>
            <element-citation publication-type="book">
               <person-group person-group-type="author">
                  <collab>Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro</collab>
               </person-group>
               <source>Augusto Malta. Prefeitura do Distrito Federal, RJ; Coleção Fotográfica (1903-1958)</source>
               <year>1958</year>
               <publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
               <publisher-name>Suzane Mayer Subgerente de Documentação Especial Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro Secretaria Municipal da Casa Civil</publisher-name>
            </element-citation>
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         <ref id="B02">
            <mixed-citation>Belin-Wurmser, M. Le livre des grands lycées de Paris – ouverts entre 1802 et 1913. Paris: J. do Bentzinger, 2019.</mixed-citation>
            <element-citation publication-type="book">
               <person-group person-group-type="author">
                  <name>
                     <surname>Belin-Wurmser</surname>
                     <given-names>M.</given-names>
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               <source>Le livre des grands lycées de Paris – ouverts entre 1802 et 1913</source>
               <publisher-loc>Paris</publisher-loc>
               <publisher-name>J. do Bentzinger</publisher-name>
               <year>2019</year>
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         <ref id="B03">
            <mixed-citation>Bonato, N. M. C. A segunda escola profissional para o sexo feminino (Rivadávia Corrêa) do Distrito Federal ou a trajetória de sua diretora – Benevenuta Ribeiro (1913-1961). Série-Estudos: Periódico do Mestrado em Educação da Ucdb, n. 25, p. 85-102, 2008.</mixed-citation>
            <element-citation publication-type="journal">
               <person-group person-group-type="author">
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               <article-title>A segunda escola profissional para o sexo feminino (Rivadávia Corrêa) do Distrito Federal ou a trajetória de sua diretora – Benevenuta Ribeiro (1913-1961)</article-title>
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