Chamada aberta para o ano de 2024: Dossiê Envelhecimento, território e ambiente

2023-12-11

Dossiê Envelhecimento, território e ambiente
O envelhecimento da população está chegando à América Latina, mas num ritmo muito diferente do que já foi visto anteriormente. Se os países hiper envelhecidos de hoje – com mais de 24% de idosos– passaram pela transição populacional ao longo de um século, na América Latina isso levará algumas décadas. Um exemplo emblemático é o Brasil que, no início do século XX, tinha apenas 25% de sua população com 50 anos ou mais, mas espera-se que dentro de uma década, 80% das pessoas atinjam a idade de 60 anos ou mais, tornando-o o sexto país mais envelhecido do mundo. Antigos equilíbrios demográficos estão sendo
rompidos, e hoje é necessário rever vários aspectos de nossa cultura, a começar, por exemplo, pela forma como definimos a “sustentabilidade”:


"[...] um olhar transversal sobre as necessidades e os interesses dos idosos nos permitiria identificar áreas de oportunidade em outros ODS que não os incluem em particular, mas são extensivos a todos eles" (Huenchuan e Rivera, 2019, p.9).


Sob uma compreensão mais ampla de “sustentabilidade social”, algumas cidades já ensaiaram diversas estratégias. Uma pesquisa de publicações acadêmicas sobre cidades e envelhecimento as categorizou em três (Yuen & Soh, 2017). Por um lado, há um software que se refere a políticas e programas governamentais de apoio ao envelhecimento. Por outro, há o trabalho com heartware, que busca conscientizar o coração das pessoas sobre a nova cultura da longevidade. A terceira estratégia -e foco de interesse aqui- é o hardware da cidade, que inclui infraestrutura urbana, serviços e a habitação como um sistema de suporte ao envelhecimento. E é nessa última linha que propomos o tema para este Dossiê da Revista Oculum Ensaios.


Se olharmos para a escala urbana, teremos que repensar a cidade a partir de uma nova lógica. Rever os bairros como zonas de apropriação territorial, onde lojas e serviços podem ser encontrados a uma distância
caminhável. Nos bairros com pouca oferta de serviços e infraestrutura adequada, é essencial revisar a conectividade com a cidade, verificando se a rede de transporte é capaz de levar a população idosa aos destinos habituais. Frente a tendência à reclusão da população idosa, as praças, os parques e certas instalações públicas – como os centros de dia – oferecem oportunidades de intercâmbio social. Os estudos da Geografia Gerontológica (Skinner, Andrews & Cutchin, 2018) vem apontando esses e muitos outrosaspectos, mas são trabalhos desenvolvidos principalmente fora do contexto latino-americano e que precisam de revisão (Sánchez-González & Rodriguez-Rodriguez, 2016).


De forma semelhante, os estudos da Gerontologia Ambiental (Rowles & Bernard, 2013) exploraram, por exemplo, os espaços intergeracionais. Os campi universitários são provavelmente os lugares da cidade com maior potencial, ainda pouco explorados. Mas, para desenvolver uma verdadeira interação entre gerações, precisam de um trabalho focado, buscando incluir a perspectiva gerontológica desde a oferta acadêmica e cultural até a integração de estratégias nos próprios Planos de Desenvolvimento Institucional, como propõe a rede Age-friendly University.


No centro das pesquisas sobre o envelhecimento está também uma nova cultura do lar, hoje resumida nos paradigmas do aging-in-place e o do aging-together. O primeiro considera os benefícios de uma
continuidade da vida na mesma casa, que é frequentemente um lugar cheio de significados e memórias. Mas a viabilidade da permanência de indivíduos idosos em casa precisa ser revista frente às tipologias habitacionais da América Latina pois, na região, há um estoque de moradias pouco resiliente ao envelhecimento de seus moradores.


Com relação ao aging-together, poderia se pensar na reformulação dos modelos tradicionais de habitação coletiva. Asilos, ILPIs e casas de repouso – distopia do envelhecimento - – podem ser repensados a partir de outras tipologias, como "cohousing sênior", do qual existem muitas experiências significativas fora dos países latino-americanos que podem inspirar possibilidades na região. Com tantos campos a serem explorados e divulgados ao público, convidamos você a contribuir com a discussão, no Dossiê da Revista Oculum Ensaios, a ser publicado no primeiro semestre de 2024. Tendo em vista sua experiência em
pesquisas e trabalhos relacionados a esta temática, convidamos o senhor/ a senhora a enviar um trabalho para o Dossiê da Revista Oculum Ensaios, a ser publicado no primeiro semestre de 2024. Temos interesse especial em artigos que tragam contribuições para o campo da Arquitetura e Urbanismo, mas também oriundos de áreas correlatas, que apresentem casos de interesse e/ou ajudem a elucidar questões, como:

 

  • Quais os desafios e oportunidades para adaptação das cidades Latino-Americanas buscando ampliar a
    autonomia e socialização da população idosa?
  • Há exemplos notáveis de habitat para a população idosa que indiquem caminhos para o desenvolvimento de tipos espaciais e políticas habitacionais?
  • Como adaptar o estoque de moradias existente ao envelhecer saudável e seguro?
  • Quais lições países que envelheceram antes que a América Latina podem sensibilizar e inspirar arquitetos, urbanistas, gestores públicos e cidadãos?

 

Os artigos poderão ser enviados até 01/03/2024, conforme as normas da revista disponíveis em: https://periodicos.puc-campinas.edu.br/oculum/about/submissions.  Serão aceitos textos em português, inglês ou espanhol. Contudo, os trabalhos aprovados em língua portuguesa serão obrigatoriamente
publicados em versões em inglês ou espanhol, de acordo com a escolha dos autores, que se
responsabilizarão pela elaboração da versão de acordo com diretrizes fornecidas posteriormente.

 

Atenciosamente,

Dr. Alejandro Pérez-Duarte Fernández


Dra. Patrícia Rodrigues Samora
(editores convidados)


Dra. Renata Baesso Pereira
(editora-chefe)

 

Referencias
Sánchez-González, D. & Rodriguez-Rodriguez, V. (eds.) (2016). Environmental Gerontology in Europe and Latin America. NY: Springer.


Skinner, Mark W.; Andrews, Gavin J. & Cutchin, Malcolm (2018). Geographical Gerontology: Perspectives, Concepts, Approaches. Nueva York: Routledge, 331 p.


Rowles, G. D. & Bernard, M. (Eds.). (2013). Environmental gerontology: Making meaningful places in old age. Springer Publishing Company.


Huenchuan, Sandra & Rivera, Emiliana (2019). Experiencias y prioridades para incluir a las personas mayores en la implantación y seguimiento de la Agenda 2020 para el Desarrollo Sostenible. Comisión Económica para América Latina y el Caribe-CEPAL.