CIÊNCIA E TÉCNICA NA TERRE AUSTRALE CONNUE (1676), DE GABRIEL DE FOIGNY
Palavras-chave:
Utopia, relato de viagem, viagem imaginária, literatura francesa do século XVIIResumo
Na terra utópica criada por Foigny em La Terre Australe Connue, publicada em 1676, tudo segue a idéia de perfeição e de igualdade emanada por seus habitantes, hermafroditas, seres unívocos, completos e guiados por sua natureza racional. A sociedade austral consiste na soma de indivíduos idênticos, cujos pensamentos são tão semelhantes que, mesmo quando devem agir coletivamente, não precisam se comunicar, pois cada um sabe o que deve fazer segundo lhe indica sua razão, que coincide com a de todos os outros austrais. Há, porém, dois momentos em que os austrais são percebidos individualmente: quando discorrem sobre um tema científico e quando apresentam uma nova invenção. Esses momentos de discussão sobre a ciência e suas aplicações técnicas chegam a ocupar mais de um terço das atividades diárias dos austrais, fato ficcional que corresponde a uma etapa fecunda do desenvolvimento da ciência na realidade histórica francesa do século de Foigny. Este artigo tem dois objetivos: por um lado, investigar até que ponto ciência e técnica singularizam os austrais, e se, com isso, rompe-se de alguma forma a unicidade de sua sociedade, por outro, encontrar os elementos reais da França do século XVII que subjazem à utopia de Foigny, levando-o a dar
um espaço tão importante às atividades científicas em sua terra austral.